quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Hollywood - ou porque o bosque de azevinhos não foi o bosque sagrado - (III)


Os Estados Unidos são um país contraditório desde sua natureza. Nasceu revolucionário, seus Pais Fundadores foram homens de bom sentido e virtudes naturais, mas de maus princípios. Protestantes puritanos e maçons que queriam construir um país com base na heresia, o qual é ir contra tudo o que é estável, e de per si contraditório. O mesmo Washington era um gentleman e revolucionário; tinha propriedades e escravos, e realizou uma revolução. Por um lado a honestidade e pelo outros a rebeldia, criando juntas uma tensão que sempre persistiria no país. Se trata da liberdade colocada antes da verdade. Estados Unidos é um país onde o Presidente norte-americano deveria ser chamado Rei, segundo Chesterton, pois a República norte-americana era a última monarquia medieval. E sem dúvida, este “Rei” obedecia a poderes ocultos que o transformavam em um lacaio daqueles que tomavam verdadeiramente as decisões. Estados Unidos é o país onde o homem do Sul, Lincoln, comenda o país do Norte durante a guerra civil. Foi neste país, onde o liberalismo estava comodamente aposentado, ocultando aparentemente essas contradições, de onde a nova vinda de imigrantes europeus fez pé. A idéia suprema da liberdade, a confiança no sistema democrático, a certeza de ser a “terra das oportunidades”, a pujança econômica e o naturalismo se faziam firmes no ideário do norte-americano médio. O poder econômico nas mãos dos banqueiros internacionais estava a ponto de acrescentar-se ao extremo de dominar por completo a União (isto ia dar-se em 1913 com a criação – fraudulenta – da Federal Reserve). A maçonaria e o poder judeu, os protestantes em inumeráveis seitas e os católicos se repartiam em diferentes proporções a seu grau de influência em uma sociedade dinâmica e em crescimento, em especial logo após a Primeira Guerra. Mas o problema é que o catolicismo norte-americano se comprometeu com o mundo naquilo que hoje se conhece como “americanismo”, traduzindo “sem mais tramite à vida diária dos católicos o “espírito americano” secular, que por sua vez deriva diretamente do puritanismo e do iluminismo inglês.” Era o modernismo religioso funcionando  com todos seus direitos e prerrogativas em uma sociedade “tolerante”. Os judeus, por sua parte, já incertos desde sua primeira vinda imigratória, se adaptaram como quase em nenhum outro lugar (melhor incluso que na Argentina), talvez porque, em opinião de Israel Shamir, encontraram no liberalismo imperante uma espécie de judaísmo secularizado.

Assim as coisas, se com o cinema surgiria a possibilidade de uma última linguagem contraditória dos postulados e formas de um mundo dessacralizado e anti-tradicional que se estendia com a crescente influência dos meios de comunicação, o domínio financeiro e, logo após, com as guerras, finalmente nessa luta se comprovou que essa mesma linguagem nova podia ser refinada mas à sua vez falsificada para muito sutilmente continuar e servir de base à guerra por outros meios. Colocando no terreno cultural, a supremacia mundial seria muito menos dificultosa. As contradições que forjaram a sociedade norte-americana se faziam presentes dentro de Hollywood.


Façamos uma parênteses antes de seguir. Há algo que disse Chesterton e que, como sempre, mais ainda mais que em referência a nosso tema, é matéria de reflexão: “É habitual condenar o estadounidense como um materialista por causa do culto ao êxito. Mas efetivamente este mesmo culto, como qualquer culto, ainda o culto do diabo, prova que, mais que um materialista, é um místico”. Isto nos leva a entender como e porque o cinema é algo que só pode surgir nos Estados Unidos e não na Europa. Nos referimos, neste caso, à herança que assumiu Griffith e os autores que a continuaram, antes que aos industriais que possibilitaram e explodiam suas conquistas. Nos referimos a esse sentido de culto cerimonioso e simbólico na forma de vincular-se à realidade (que Griffith como bom sulista possuía), um tipo de misticismo que, fora da necessária guia mestra da Igreja Católica, se terminou desviando não até o materialismo se não até um neo-paganismo que logo sim, em nossos tempos, abraçaria o aberrante e o incomunicável, previa degradação do sentido simbólico-ritual da vida. Enquanto a Europa se havia estancado em uma imobilidade própria de quem se submete à máquina, nos Estados Unidos a máquina foi submetida pelo homem que a tomou como objeto sobre o qual elevou seu dinâmico misticismo. O europeu se prostrou diante da máquina porque já não se prostrava diante de Deus. O americano não se prostrava diante da máquina porque seu misticismo culto do êxito lhe exigia movimentar-se. Mas também é certo que uma reverência residual do puritanismo e do catolicismo liberal tomou para si essa re-utilização da máquina para olhar o mundo como se este fosse jovem. Por tudo isto o cinema norte-americano pode re-introduzir a figura do herói e a épica, sem as quais o cinema não haveria sido o que foi. Pois agora, quê classe de herói ou arquétipo moldou Hollywood, isso é tema de outro capítulo de nosso livro.

O certo é que o materialista europeu esgotava sua visão no retângulo da tela fixa de Lumière e Mélies. O místico americano, ao contrario, não podia fixar-se quieto sem expandir sua visão mais além até o vasto horizonte. O êxito lhes pertencia. Desde logo, nem todo misticismo é bom. O culto do comércio espreitando à poesia criaria uma contradição que muitas vezes derivaria na insatisfação de ver estropiadas nobres qualidades adaptadas a um fórceps de felicidade final para assegurar o êxito. Essa dupla vertente do misticismo vinculava de uma forma com a vida através da fantasia, e de outra através da realidade. Isto é: a chamada “fabrica de sonhos” produzia filmes e obtinha dinheiro. Havia filmes que podiam chegar a vincular – com sua linguagem tributaria da tradição simbólica ocidental – com a realidade, e falamos da realidade metafísica; enquanto que o culto do puro êxito levava a evadir da realidade a quem desde os grandes estúdios corriam atrás do êxito e poder, mensurável em números de bilheteria e arrecadação. A força que lhe dava o misticismo ao cinema e à indústria norte-americanas levava consigo, como a alma dos Estados Unidos, uma tensão que não era paradoxo, se não uma falta de coesão que ao largo devia resolver-se e hoje resolveu-se. Mas esse é um tema posterior.

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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Hollywood - ou porque o bosque de azevinhos não foi o bosque sagrado - (II)


Um dado a ter em conta é que Hollywood ou a industria do cinema nasce antes de que nascera o cinema (o cinema segundo o inventou D. W. Griffith e não segundo a invenção técnico-mecânica de Edison e os Lumière).

Hollywood como lugar do cinema nasceu à raiz da feroz briga entre o poderoso cartel comandado por Edison no Leste, a Motion Pictures Patents Company (M.P.P.C.), que agrupava a companhias como a Biograph, a Vitagraph, a Essanay entre outras norte-americanas, mais as francesas Pathé e Mélies, grupo este monopolista, e o grupo dos produtores autodenominados “independentes”, quase todos empresários judeus que haviam ascendido vertiginosamente em seu poder econômico em atividades alheias ao cinema e que agora viam um novo negócio onde o lucro poderia ser exorbitante.

Uma guerra, então, entre protestante norte-americanos ou WASP (o Trust Edison) e hábeis judeus em ascensão (agrupados na Independent Motion Pictures Distributing and Sales, IMP) foi a que decidiu a formação da “Meca do cinema”. Para fugir destes processos constantes para dominar o crescente mercado cinematográfico (ainda cinematográfico e não cinema), um adiantado, o produtor William Selig, se mudou em 1907 a Los Angeles para filmar exteriores e encontrar o lugar adequado para estabelecer-se. Outros produtores o imitaram e chegaram até aquele subúrbio de Los Angeles chamado Hollywood, isto é, bosque de azevinhos. Alguns associaram esta mudança com a anterior e lendária conquista do distante Oeste, especialmente pelas disputas constantes e violentas e os personagens peculiares que por ali circundavam.

Os primeiros produtores judeus se associaram na Independent Motion Pictures Distributing and Sales, IMP. Em 1912 se converteria na Universal.

Se o leitor tem em mente que o cinema – não como procedimento técnico-mecânico, se não como “linguagem” – nasce a partir do gênio D. W. Griffith, que realiza seu primeiro curta no ano de 1908, pode dizer-se então que Hollywood nasceu antes do cinema, tal como hoje o conhecemos. Isto é, o cinema nasce como fábrica e indústria (com todas as precariedades do caso) antes que como lugar ou taller de arte, pois este ainda estava por inventar-se. Foi graças a Griffith e seus descobrimentos das possibilidades do novo meio que a industria se assentou e aproveitou tais inovações porque, não se duvide que Griffith, também, como acertou em dizer uma vez Faretta, veterano ator partidário da causa sulista, desenvolveu a linguagem do cinema e influenciou sobre todos os que se acercavam à esta nova expressão artística. Foi sem dúvidas o inventor ou pelo menos o sistematizador de todos os recursos que formaram a linguagem do novo meio que, desde então, se conhece como cinema.

O cinema norte-americano nascerá destes pioneiros que construíram a maior e mais influente industria cultural do mundo, de onde se albergaram os maiores talentos em matéria e desde de onde também se difundiu um modo de ver a vida subordinado à corrente da história da qual se movia.

Portanto, é de conhecimento de todos que o cinema como industria foi obra dos judeus, eles mesmos se encarregaram de recordar que é obra sua. Como e de que maneira articularam seu poder e quê classe de visão do mundo teriam para oferecer, se é que pensaram neste assunto na hora de produzir espetáculos para o mundo?

Devemos recordar, antes de mais nada, qual era o país em que estes imigrantes foram acolhidos e prosperaram, integrando-se sem dificuldades e tranquilamente.

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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Hollywood - ou porque o bosque de azevinhos não foi o bosque sagrado - (I)


Há uma visão extremamente reducionista das coisas que alimenta dois erros com respeito à Hollywood, a chamada por alguns “Meca” do cinema. A primeira visão, extremamente cética, encontra em tudo o que ali se fez o condenável, pernicioso, corrupto e pestífero, sem distinguir matizes e sem ver que houve exemplos de filmes “não-hollywoodenses” que saíram das mesmas entranhas de Hollywood, ainda que sem apoio massivo, e como simples derivados de uma grande industria comercial que podia permitir-se tais luxos, ainda que sem uma negação formal e explicita das idéias dominantes nos Estados Unidos. Para estes Hollywood é – ou melhor, foi, porque hoje só resta o cartelzinho e o suposto “glamour” dos palavreados – uma cloaca da qual não podiam sair se não excrescências do liberalismo e paganismo que conquistam o mundo. É inegável que em geral não se equivocam quando vemos o curso que as coisas tomaram a partir da ordem instaurada desde o final da Segunda Guerra Mundial, na qual e desde a qual houve a padronização oficial ecumênica pelo cinema norte-americano, apesar de sua variedade superficial. Não obstante, esta visão não pode encerrar-se em si mesma sem ser injusta com muitos valores resgatáveis em meio à produção de tantos filmes. Porque, além do mais, Hollywood dependia da demanda e recepção de um publico em uma sociedade norte-americana que ainda conservava o senso comum, onde a Igreja católica estadounidense – que sempre foi liberal – foi muito poderosa para influenciar em questões de índole moral, em um povo nascido e marcado pelo puritanismo protestante, ainda não degradado como nestes tempos de absolutas “liberdades”. A profusão de talentos e idéias e sua possibilidade de recepção nesse universo em que aparece os Estados Unidos permitiam a elaboração de certas visões não uniformizadas ou laterais a respeito da mentalidade que se terminou impondo-se a partir de meados dos anos 60.

A segunda visão, de marca oposta, também realiza uma simplificação, como que opondo-se dialeticamente à primeira. É aquela que postula uma visão amena ou sonhadora de Hollywood, onde desde os grandes estúdios se havia sustentado uma visão do mundo oposta ao “american way of life” dos WASP (ndt: White, Anglo-Saxon and Protestant, sigla que corresponde a “branco, anglo-saxão e protestante”, definição pejorativa dada de forma generalizada a maior parte da população norte-americana), devido a que em Hollywood os que decidiam eram os judeus associados a católicos. Esta postura afirma que “o cinema norte-americano, sobretudo em sua etapa clássica, foi uma cunha em relação à visão política, econômica, cultural e sobretudo religiosa no que chamamos forma de vida estadounidense. E esta é o paradoxo: Hollywood, sobretudo em sua etapa clássica, não participou do “modo de vida norte-americano”. O mesmo crítico que sustenta este ponto de vista sustenta que da mesma forma que há uma lenda negra sobre a Conquista espanhola da América, assim também havia uma “lenda negra” a respeito de “Hollywood”. Veremos logo a presteza de tal acerto, fundado principalmente em um erro religioso contaminado de liberalismo e em um desconhecimento acerca da verdadeira natureza ou identidade de poder.

O certo é que tanto uma como a outra posição pecam de simplistas e, de algum modo, cômodas para delimitar desde agora e para sempre um assunto que é muito mais complexo, quanto fascinante. Como dizia Chesterton: “devemos desconfiar da descrição de uma nação quando é uma descrição fácil. Se um povo pode ficar coberto por um só adjetivo, podemos estar seguros de que é um adjetivo equivocado.”

Veremos que isto a nosso entender não é nem lenda negra nem lenda branca sobre Hollywood. Nem dissolução romântica do poder ou descida de linha política, mas tampouco pólo de poder ou “contra-poder tradicional” dos produtores de Hollywood, que se não foram míopes a respeito de questões artísticas tampouco foram Príncipes mecenas do Renascimento. Trataremos de entender porque o “bosque de azevinhos” não foi nunca o pretendido “bosque sagrado”. Mas antes façamos um pouco de história.

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sábado, 6 de julho de 2013

Infância calcinada e o mundo sem Esperança

Não adianta nada evitar o realismo cotidiano e banal com a espera de situações ideais, dum emprego apostólico, duma ocupação heróica, duma noiva total e perfeita, porque é bem possível que essas coisas não existam. Aliás, essa idéia de aguardar coisas que pesem, que valham realmente a pena de nosso esforço, é uma impertinência e uma presunção. Caíram nisso homens muito piedosos como aqueles que São Cipriano exortava: atacados duma prosaica peste, achavam ruim porque já haviam decidido, cada um no seu foro íntimo, que queriam ser mártires... Esse escrúpulo de levar a sério um orçamento ou um horário, essa preocupação de ser despreocupado, também traduz um desejo de ser cada um o próprio autor dos acontecimentos ou então uma displicência boêmia em relação ao fluxo de fatos reais que nos vêm ao encontro cada dia. [...]
O cristão tem a promessa de Deus e espera. Ora, o pai de família espera a visita dum amigo que tarda, não deverá decerto andar dum lado para outro, à toa, sob pretexto de impaciência e de amizade, nem consentir que os filhos e a mulher fiquem tontos entre o portão e o telefone. Ele deverá "providenciar todas as coisas" e a esposa deverá trabalhar com paciência e alegria para que o amigo encontre a casa adornada e cada coisa pequenina em seu lugar. [...]
Esperar, para o cristão, é providenciar e preparar para o hóspede, é ser vigilante como um soldado, humilde como a dona-de-casa, confiante como a criança. Anos atrás as crianças tinham um sentido vivo da esperança, porque gostavam muito de brincar de soldado e de dona-de-casa que recebe visitas, mas o mundo de idéias avançadas e mecanizadas vai perdendo essas duas noções fundamentais, a do soldado e a do hóspede. A visita hoje é um susto que se prega nos outros; é um aparecer de repente com gritos; é um acidente resolvido por uma guinada na direção de um automóvel. Em Copacabana, por exemplo, há casas em que não se põe mais a toalha na mesa: o hóspede inopinado é conduzido para diante duma frigidaire onde se improvisam uns sanduíches americanos com um pão pedido às pressas pelo telefone. Os soldados também vão deixando de existir com sua antiga galhardia para dar lugar a uns técnicos eficientes do manejo de certos instrumentos de engenharia. O ludus infantil tenta em vão se apegar a esses tristes modelos de vida, e a Esperança cristã encontra nos corações dos adultos, cada vez mais, a raiz na nossa infância quase calcinada.

Gustavo Corção - A Descoberta do Outro

terça-feira, 2 de julho de 2013

Minha infância

Não tenho experiência pessoal de que seja uma infância socialista: nunca andei no colo do Estado, não fui cuidado por técnicos, nem apascentado por mocinhas de frivolidade pedante. Não conheço no meu tempo esse tom de voz convencional de falsa maternidade, essa meiguice eficiente que se ouve no rádio,durante o quarto de hora infantil, ou nas escolas municipais da nova pedagogia. A voz que eu ouvia era franca e forte, voz de mãe cheia de filhos que sabia distribuir os tapas necessários, cortar o pão e providenciar os agasalhos.

Minha infância foi livre e feliz, em casa grande, casa antiga pintada de azul-claro, com platibandas enormes e bolas de vidro no jardim. Aprendi a tabuada e a leitura decorando e soletrando, encostado em minha mãe, pequenino e confiante, sem interesse, sem a menor vontade de aprender. Era bom soletrar a cartilha com o pensamento alheio, com vontade de acabar para ir ver a galinha no chôco ou continuar um morrinho de terra.

Não havia entre a cartilha e a galinha a relação de cumplicidade que mais tarde me seria inculcada nas primeiras lições de coisas, quando o mundo começasse a girar em torno de minha adolescência. Mas entre todas as coisas havia uma imensa solidariedade porque tudo estava na casa de meu pai.

Felizmente minha mãe não tinha lido Rousseau, que a teria talvez convencido de me mandar aprender com a galinha. Não conhecia também os espantosos resultados da Montessori com seus anormais; não procurou me incutir o interesse pela tabuada nem me convenceu de estar começando naqueles dias minha cidadania. Meu soletrar foi livre e gratuito, como a galinha, como as bolas de vidro no jardim. Cada coisa tinha nesse tempo  o seu próprio direito de existir. Por isso, o mundo era muito amplo e muito seguro.

O tempo também não existia; ou era uma espécie de dança de todas as coisas. E quando as pessoas dançavam, não deixavam de ser elas mesmas. Quando o teto vinha ao meu encontro, oscilando, crescendo, também não deixava de ser teto. O tempo era a regra dum brinquedo enorme: fazia meu pai sair e depois fazia-o voltar. Aliás, o mais certo é dizer que a regra vinha de meu próprio pai. Tudo era arbitrário e por isso mesmo havia uma enorme segurança em volta de mim; porque os árbitros eram pai e mãe. Não sentia nenhuma injustiça comas contradições dos adultos, mas um vexame de não ter aprendido uma certa regra, como nos brinquedos de pique e de roda.

Nas horas de estudar, eu subia para uma saleta pequenina e pegava a cartilha. Minha mãe não se sentava no chão da nova pedagogia para me ensinar números jogando naionente, mas dizia que hora de estudar era hora de estudar. E tinha imensa razão, porque tudo tem seu tempo. Eu poderia ter aprendido com melhor método, ter economizado alguns dias na leitura daquela frase "O viúvo viu a ave", ou ter aprendido uma frase mais clara; mas não ficaria sabendo que cada coisa tem seu tempo. Tempo para brincar; tempo para estudar; tempo para comer. E tempo para rezar era na hora de dormir.

 - Então,vamos rezar. Bicho é que dorme sem rezar. Padre Nosso...

Gustavo Corção - A Descoberta do Outro