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terça-feira, 28 de janeiro de 2014
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
O Estudante Alsaciano
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| Acácio Antunes |
"A poesia O Estudante Alsaciano vive o drama íntimo de um aluno francês cuja escola passara a ser alemã com a ocupação da Alsácia pelos prussianos, na guerra de 1870. A poesia descreve as reações do seu patriotismo, a incomodação que lhe atormenta o espírito, o grande apego e o amor, antes desapercebidos, que ele, só então, verificava ter pela sua escola, na profunda amargura de perdê-la, de despedir-se dela em definitivo, para tornar-se aluno de um professor alemão, passando a estudar em língua alemã."
- Gen. A. de Lyra Tavares
- Gen. A. de Lyra Tavares
Antigamente, a escola era risonha e franca,
Do velho Professor as cãs, a barba branca,
Infundiam respeito, impunham simpatia,
Modelando as feições do velho, que sorria
E era como criança em meio das crianças.
Como ao pombal correndo em bando as pombas mansas,
Corriam para a escola; e nem sequer assomo
De aversão ou desgosto, ao ir para ali como
Quem vai para uma festa. Ao começar o estudo,
sem um pesar, abandonavam tudo,
E submissos, joviais, nos bancos em fileiras,
Iam todos sentar-se em frente das carteiras,
Atentos, gravemente, uns pequeninos sábios.
E o velho professor, tendo sempre nos lábios
Uma frase a animar aquele bando imbele,
Ia ensinando a este, ia emendando aquele,
De manso, com carinho e paternal amor.
Por fim, tudo mudou. Agora o professor,
Um grave pedagogo, é austero e conciso;
Nunca os lábios lhe abriu a sombra de um sorriso.
E aos pequenos mudou em calabouço a escola!
Pobres aves, sem dó, metidas na gaiola!
Lá dentro, hoje, o francês é língua morta e muda:
Unicamente o alemão ali se fala e estuda,
São alemães o mestre, os livros e a lição;
A Alsácia é alemã; o povo é alemão,
Como na própria pátria é triste ser proscrito!
Frequentava também a escola um rapazito
De severo perfil, enérgico, expressivo,
Pálido, magro, o olhar inteligente e vivo
Mas de íntima tristeza aquele olhar velado
Modesto no trajar, de luto carregado...
-Pela Pátria, talvez! - Doze anos só teria.
O mestre, de uma vez, chamou-o a geografia:
-"Diz-me cá, rapaz... Que é isso? estás de luto?
Quem te morreu?"
-"Meu pai, no último reduto,
Em defesa da Pátria!"
-"Ah! sim, bem sei, adiante...
Tu tens assim um ar de ser bom estudante,
Quais são as principais nações da Europa? Vá!"
-"As principais nações são... a França..."
-"Hein? que é lá?...
Com que então, a França é a primeira? Bom começo!
De todas as nações, pateta, que eu conheço,
Aquela que mais vale, a que domina o mundo,
Nas grandes concepções e no saber profundo,
Em riqueza e esplendor, nas letras e nas artes,
Que leva o seu domínio às mais remotas partes,
A mais nobre na paz, a mais forte na guerra,
De onde irradia a ciencia a iluminar a terra,
A maior, a mais bela, a que das mais desdenha,
Fica-o sabendo tu, rapaz, é a Alemanha!"
Ele sorriu com ar desprezador e altivo,
E a cabeça agitou num gesto negativo.
E tornou com voz firme:
-"A França é a primeira!"
O mestre furioso, ergue-se da cadeira,
Bate o pé e uma praga enérgica se lhe escapa.
-"Sabes onde está a França? Aponta-me no mapa!"
O aluno ergue-se então, os olhos fulgurantes,
O rosto afogueado; e enquanto os estudantes
Olham cheios de assombro aquele destemido,
Ante o mestre, nervoso, audaz e comovido,
Tímido feito herói, pigmeu tornado atleta,
Desaperta febril, a sua blusa preta,
E batendo no peito, impávida, a criança
Exclama:
Do velho Professor as cãs, a barba branca,
Infundiam respeito, impunham simpatia,
Modelando as feições do velho, que sorria
E era como criança em meio das crianças.
Como ao pombal correndo em bando as pombas mansas,
Corriam para a escola; e nem sequer assomo
De aversão ou desgosto, ao ir para ali como
Quem vai para uma festa. Ao começar o estudo,
sem um pesar, abandonavam tudo,
E submissos, joviais, nos bancos em fileiras,
Iam todos sentar-se em frente das carteiras,
Atentos, gravemente, uns pequeninos sábios.
E o velho professor, tendo sempre nos lábios
Uma frase a animar aquele bando imbele,
Ia ensinando a este, ia emendando aquele,
De manso, com carinho e paternal amor.
Por fim, tudo mudou. Agora o professor,
Um grave pedagogo, é austero e conciso;
Nunca os lábios lhe abriu a sombra de um sorriso.
E aos pequenos mudou em calabouço a escola!
Pobres aves, sem dó, metidas na gaiola!
Lá dentro, hoje, o francês é língua morta e muda:
Unicamente o alemão ali se fala e estuda,
São alemães o mestre, os livros e a lição;
A Alsácia é alemã; o povo é alemão,
Como na própria pátria é triste ser proscrito!
Frequentava também a escola um rapazito
De severo perfil, enérgico, expressivo,
Pálido, magro, o olhar inteligente e vivo
Mas de íntima tristeza aquele olhar velado
Modesto no trajar, de luto carregado...
-Pela Pátria, talvez! - Doze anos só teria.
O mestre, de uma vez, chamou-o a geografia:
-"Diz-me cá, rapaz... Que é isso? estás de luto?
Quem te morreu?"
-"Meu pai, no último reduto,
Em defesa da Pátria!"
-"Ah! sim, bem sei, adiante...
Tu tens assim um ar de ser bom estudante,
Quais são as principais nações da Europa? Vá!"
-"As principais nações são... a França..."
-"Hein? que é lá?...
Com que então, a França é a primeira? Bom começo!
De todas as nações, pateta, que eu conheço,
Aquela que mais vale, a que domina o mundo,
Nas grandes concepções e no saber profundo,
Em riqueza e esplendor, nas letras e nas artes,
Que leva o seu domínio às mais remotas partes,
A mais nobre na paz, a mais forte na guerra,
De onde irradia a ciencia a iluminar a terra,
A maior, a mais bela, a que das mais desdenha,
Fica-o sabendo tu, rapaz, é a Alemanha!"
Ele sorriu com ar desprezador e altivo,
E a cabeça agitou num gesto negativo.
E tornou com voz firme:
-"A França é a primeira!"
O mestre furioso, ergue-se da cadeira,
Bate o pé e uma praga enérgica se lhe escapa.
-"Sabes onde está a França? Aponta-me no mapa!"
O aluno ergue-se então, os olhos fulgurantes,
O rosto afogueado; e enquanto os estudantes
Olham cheios de assombro aquele destemido,
Ante o mestre, nervoso, audaz e comovido,
Tímido feito herói, pigmeu tornado atleta,
Desaperta febril, a sua blusa preta,
E batendo no peito, impávida, a criança
Exclama:
-"É aqui dentro! aqui é que está a França!"
Acácio Antunes
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Tolerância, por Jackson de Figueiredo
Há poucos dias, a uma esquina do planeta, que tanto pode ser Portugal como as mais próximas da Garnier, víamos - um dos homens mais afortunados deste rico país e o modesto escrevinhador destas linhas - passar, rolar pelo asfalto da Avenida, sobre carros de luxo, alguns dos astros mais brilhantes do nosso sistema social, homens da finança e homens da política, famosos condotieri do mercado e experimentados coronéis da administração. Certo, escapou-me alguma blasfêmia de pessimista ou, menos que isto, uma simples frase irreverente, dessas que são o último recurso de uma conversa desentendida, quase a morrer.
O amigo ilustre, porém, como que se reanimou aquele golpe de acaso. Fulgiram-lhe os olhos, já de si luminosos, de luz nova e singularmente penetrante. Sorriu depois, quase sem esconder que ali estava apiedado de mim e, como houvera pouco antes atentado na capa de um livro que eu tinha debaixo do braço, disse-me despedindo-se: - "O que V. precisa é ler e reler este livro, ou melhor, gravar bem o seu título no coração."
O livro não chegava a ser uma dessas obras geniais com que vai o espírito brasileiro refazendo a cultura ocidental, arruinada pelas brutais negações da guerra e do bolchevismo... Era um pequeno tratado sobre a tolerância, espécie de cartilha ou de guia prático aos que vivem mergulhados no terror de parecerem menos aptos aos climas morais contemporâneos...
Eis aí até que ponto têm decaído no Brasil a inteligência e o caráter, este principalmente. Quem mais o tem, tem medo dele como de uma víbora azougada. Não o quer ver respirar... E a prova é que, quanto pode, concorre para a formação de uma atmosfera inimiga de todo caráter, porque inimiga de toda convicção. Como foi possível esse estado de coisas, é o que é difícil explicar, mas fato contra o qual não valem argumento de qualquer espécie é que, se temos baixado moralmente, se o nosso nível social e político é cada vez mais inferior, é sempre em proporção ao grau de tolerância com que vimos encarando as coisas mais repugnantes e mais despudoradamente implantadas no seio da nossa vida de povo em pleno uso da bandeira, generais, cornetas e tambores, tal e qual os povos que se estimam livres e amantes da liberdade. Fizemo-nos tão furiosamente o país da tolerância que quase já somos como uma casa dela... e se a bandeira não é como luz verde à porta da nossa incrível boa fé, é porque não há quem a possa olhar sem recordar o sangue que por ela já foi derramado, em atos de intolerância da nossa ofendida dignidade...
Não faz muito tempo, deu O País uma resposta curta e incisiva a umas tantas carpideiras da nossa imprensa, que só na tolerância vêem a possibilidade de salvar-se esta nação da horrível queda no clássico abismo da tirania. Nada mais fez aquele matutino que apresentar a essa piedosíssima gente a fotografia de um certo general mexicano "pouco antes" de ser fuzilado "pouco depois" de ser vencido como chefe revolucionário.
Dir-se-á que nem por estes e outros rigores não cansa o espírito da Revolução naquela República. Mas além de serem muito sérias e muito graves as causas da permanente agitação na vida política do México, uma coisa, desde logo, se patenteia como vantagem àquele país, da incontestável dureza de ânimo dos seus homens: as revoluções por lá não desmoralizam generais nem políticos; implicam vencedores e vencidos, que não se acovardam nem diante da derrota, nem diante dos juízes da vitória. É claro que, se no Brasil, os fazedores de revolução tivessem a certeza de que a derrota seria a morte ou, pelo menos, o exílio, em menor número as fariam, e jamais dessas que, vinte dias depois de abortadas, nada mais pedem que um baile sem máscaras e um foguetório de lágrimas reconciliadoras. Em política, quando o que se visa é o bem do país, se a reconciliação pode ser possível e conseqüência de circunstâncias imperiosas, o que não se concebe é a dignidade esmolando o perdão, porque dignidade pode existir até no erro, mas jamais usará a linguagem da covardia.
E não reparam também esses propugnadores da tolerância como princípio da nossa vida política que são eles próprios os primeiros que negam a esta toda a nobreza das convicções e toda a beleza das verdades praticadas. Realmente, "a tolerância sempre teve por objeto um mal". "Tolerar o bem, tolerar a virtude, seriam expressões monstruosas." É isto o que diz a sabedoria dos séculos. Por conseguinte, que é que se pede, entre nós, com essa desenfreada apologia da tolerância, senão o carinho para todos os sofismas e todos os crimes, quando vencidos, ou o império deles reconhecido legítimo, como possibilidade?
Se ela é somente a serenidade da justiça, a benignidade do trato, o respeito às pessoas e aos direitos naturais do ser humano, é evidente que não são os fazedores de revolução em nosso país os que dão exemplo dela, e são eles os menos capazes de a definirem e de ajuizarem do grau em que a merecem. Também os céticos, os que não entram em luta alguma, não podem ser ouvidos sobre o assunto. A tolerância neles é, como diz Vermeersch, cegueira, ingurgitamento, paralisia. "Que coute la tolerance à celui que n'interesse aucune grande cause?"
No domínio da vida contemporânea, dada a gravidade dos problemas agitados, é claro que é muito mais útil à sociedade um homem fanático de péssimas idéias do que um indiferente, isto é, melhor o veneno que mata violentamente, mas a cujos primeiros sintomas é possível acudir com o antídoto indicado pelo bom senso e a tradição, do que esse lívido elixir de podridão, que é o ceticismo. Não, não serão esses erros políticos que nos arrastarão à ruína moral, que, de fato, parece apontar-nos o destino... essa ou aquela forte afirmação de personalidade, que não faz do perdão cantiga ou negócio. Pelo contrário, o que o Brasil precisa é de convicções, é de vontades férreas, é de indivíduos capazes de perdoar, sim, mas antes de tudo capazes de justiça e destemor ante a prosápia do malandrismo político.
O que em verdade se pode afirmar é que o nosso presente mal-estar tem origem longínqua, e jamais na ação decisiva, enérgica e continuada, intolerante - que é assim que a batizam - desse ou daquele dos raros homens que entre nós têm encarnado o poder, e é bem possível que, se Pedro II, ao invés de ler Renan e alisar a testa de mestre Benjamim, tivesse sido simplesmente um verdadeiro chefe da monarquia, consciente da obrigação que tinha de a defender a todo transe, é bom possível, repito, que, se a Federação hoje tivéssemos, ela não fosse esta de dois sobre dezoito, nem o seu espírito constitucional um simples fantasma de quartéis e jornais esfomeados...
Se no mundo europeu a formação dos partidos marcou a era do enfraquecimento das nacionalidades, verdade positiva, incontestável, é que, no Brasil, o desaparecimento dos partidos foi a causa mais séria do enfraquecimento geral dos caracteres dados à política, e, por isso, das não pequenas misérias de que já temos sido vítimas, assim como o aplainamento do terreno para misérias ainda maiores. Ora, nunca os partidos foram possíveis sem a intolerância dos princípios e a relativa intransigência dos homens, sem as quais não é possível vida moral, amor da verdade, e de tudo o mais que é sua conseqüência. Foi justamente o desaparecimento dessas condições de vida moral, que, entregando cada um a si mesmo fez a escravidão da maioria, e nem sempre aos mais dignos desse bastardo feudo. Não seja, pois, a tolerância o ideal das novas gerações brasileiras. Se estas se encontram no grau de inferioridade social, em que estão, devem-no, sobretudo, à inércia com que as gerações anteriores se escravizaram a dogmas da imaginação e do orgulho, traindo, ufanas, os do bom sendo e do patriotismo. A intolerância não é estupidez ou fúria cega. Não é mesmo digno de ser intolerante quem não sabe por que deve sê-lo, quem não sabe por que o é. Intolerância é amor da verdade, tanto da Suprema Verdade, como de qualquer verdade. É a face exterior da convicção, que por sua vez é a face interior da verdade, que, se não depende de nós para ser, só o é para nós quando a procuramos, a amamos, e sabemo-la defender.
Avalio como não sorrirá de mim, se me ler, o ilustre amigo que provocou estas considerações bem menos valiosas que as de Matias Aires em época de maiores vaidades e maiores brios. Mas que se há de fazer?
Já agora é certo que bem diversamente iremos ambos a lutar com o tempo, que não só destrói prodígios de intolerância como os de tolerância... "Pontuais na sepultura", como dizia Machado, não poderemos deixar de ser... E só depois de fechada sobre nós aquela porta, poderemos saber talvez quem de nós foi mais feliz e mais sábio.
Porque, é bom notar, não só de amarguras e desgostos vive a intolerância...
Tem seus dias!, como se diz lá para o Norte.
Tem seus dias!, como se diz lá para o Norte.
Jackson de Figueiredo
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
O dever de ser nacionalista
Por: Fernando Rodrigues Batista
"Haveis de reconquistar o Brasil, não pela força bruta das armas mas pelo poder invencível das almas. Sois os arautos do advento da Idade Nova, que breve será instaurada no Brasil sob signo sagrado do Cristo."
Alcebíades Delamare
Somos católicos e dentro da universalidade dessa filiação divina, somos nacionalistas, nacionalismo temperado pelo catolicismo, tal qual sempre foi o autêntico nacionalismo pátrio.Portugal e Castela realizaram uma obra prodigiosa de expansão imperial e entrelaçamento de povos e raças, como não há exemplo igual na vida dos outros povos.
O verdadeiro nacionalismo brasileiro, portanto, não pode deixar de ter um sentido lusíada e hispânico. Daí a afirmação insuspeita do historiador inglês Toynbee (protestante): "Os espanhóis e portugueses, cristãos e católicos, levaram a cabo um sentido colonizador peculiar; não só comem seu pão com os indígenas que civilizaram, mas ainda se casam com eles. Deus os bendiga. Se o gênero humano chegaram dia a reunir-se numa sí família, será graças a eles e não a nós".
Logo, a ação histórica de Portugal e Castela, uma empresa inédita, marcada com o signo missionário e civilizador, só pode ser equiparada ao colonialismo mercantilista – como fazem os agentes do anti-Brasil - pelo desconhecimento da história ou pela má fé dos sectários de ideologias hostis a essa obra.Bem sabemos, nós, brasileiros, pela experiência de nossos antepassados, o que foi a atuação colonial, no sentido superior desta palavra – de colere, cultivar, donde cultura -, isto é, a ação cultural e civilizadora dos portugueses ao construírem o Brasil. Ação empreendida sob o signo da Cruz, trazida como símbolo nas caravelas e plantada no solo brasileiro ao desembocarem pela primeira vez aqui os súditos de El Rei Dom Manuel, logo genuflexos ante o altar da Missa celebrada por Frei Henrique de Coimbra, ação profundamente civilizadora por eminentemente missionária.Seguindo esta linha de raciocínio, a Pátria é para nós um patrimônio espiritual como a concebeu alhures Ramiro de Maeztu, barbaramente fuzilado pelos marxistas espanhóis em 1936. O que da forma a Pátria única é um nexo, uma comunidade espiritual, que se torna, ao mesmo tempo, um valor da história do Mundo. Só a Pátria assim concebida nos dará a coragem de levar assim ao último extremo a vontade de sacrifício, o esquecimento do bem próprio, a heróica febre de vencer ou cair: os homens prontos a aceitar a morte para que a Pátria viva!.Nacionalismo, aplica-se, com efeito, mais do que à terra dos antepassados, aos próprios antepassados, ao seu sangue e às suas obras; à sua herança moral e espiritual mais do que à sua herança material, como anuiu Maurras.
No entanto, a todo custo, querem os agentes do anti-Brasil nos apresentar uma história falsificada em seus desígnios, feito de per si trágico, cujos protagonistas são homens vulgares, vagabundos de espírito, que proliferam desde os bancos escolares o cumprimento de um novo decálogo, uma religião panfletária com deuses utilitaristas, no intento de fazer encobrir nosso olhar para o alto.
Em política, a história tem dado mostras do poder destruidor da conspiração anti-cristã e maçônica, e de que o método democrático nas mãos da partidocracia e do poder do dinheiro significa a desolação da nação.
E as desordens são de toda sorte; basta ver a educação sem Deus que nossas crianças recebem, a degradação do ensino universitário, leis e mais leis que atentam contra a família natural, a imoralidade que reina nos meios de comunicação, a difusão universal de literaturas perniciosas e de um cinema corruptor que desmoralizam gerações de jovens, sem atinar para criminalidade sem precedentes vinculadas geralmente ao tráfico de drogas e ao uso de tais substâncias.
Pondera Charles Beudant que uma sociedade pode ser grande e próspera apesar dos erros, mesmo graves, na ordem das ciências físicas, ao contrário, se um erro desviar um país da ordem moral e política, será um desastre total: os povos que não aceitam a disciplina dos princípios acabam por sofrer cedo ou tarde a disciplina da força.
E assim nós, católicos, nacionalistas, encontramo-nos amordaçados, exilados, confinados em nossa própria terra, em um Brasil que não mais é Brasil, esvaziado que foi de toda sua tradição histórica, de todo seu arcabouço moral e metafísico; vivemos covardemente, sem sinais de qualquer reação sob o império da demagogia democratica de que com tanta desenvoltura falam nossos homens públicos.
Uma nação cuja seiva espiritual fora relegada ao ostracismo não passa de terra árida que esteriliza a semente, é a massa que abafa o fermento. Poderão desaparecer as tensões, mas será a calmaria do deserto. As aparências poderão ser de paz, mas será um simulacro de paz, semelhante ao pesado silêncio da morte.
Em face de tais circunstâncias, que esperar de uma geração educada por mestres cuja maior preocupação é torna-la ímpia? Pio XII nos dá um direcionamento seguro: "Não os acovardem amados filhos, as dificuldades externas, nem os desanime o obstáculo do crescente paganismo da vida pública. Não os conduzam ao engano os suscitadores de erros e de teorias degradantes, perversas correntes, não de crescimento, senão de destruição e de corrupção da vida religiosa".
Ser nacionalista na hora presente é um dever inelutável, uma exigência peremptória e a única política prudente face as atuais circunstâncias da Pátria. A nação encontra-se pavorosamente diminuída moral e materialmente; somente uma política de sacrifícios extremos, de afirmações substanciais, nos permitirá resistir a pressão dos poderosos da terra e salvar, ao menos, a identidade de nosso ser nacional, de nossa individualidade histórica.
Nosso nacionalismo, porém, não se circunscreve a hostilidade ao indecoroso comunismo como o faz certa classe de nossa elite; nosso nacionalismo só tem sentido se revestido do catolicismo, pois que seu fundamento essencial, sem o qual não passaria de um nacionalismo aos moldes jacobinos, sem qualquer sentido para nós.
Sim, ser nacionalista para nós significa um sagrado compromisso para com a pátria, para com nossa história e nossa estirpe; que os tíbios e os medíocres nos alcunhem do que bem lhe aprouverem, pois enquanto vociferam seus ressentimentos, nós estaremos combatendo por Cristo e pela Pátria.
Há que restaurar tudo em Cristo seguindo o lema de São Pio X, incluindo naturalmente a Pátria.
Se queremos libertar a Pátria em Cristo e nossa opção é o Nacionalismo cristão, devemos começar por nossa liberdade interior, renovando os afetos, bens e poderes em Cristo Crucificado.Desprendidos do amor próprio e de tudo o que possuímos, amaremos a Pátria e ao próximo com um amor transcendente, despojado de todo caráter possessivo e que não busca nada para si. Amaremos como Cristo nos amou, com uma disponibilidade sem reservas para o serviço e com um espírito de sacrifício que tudo da sem nada receber nem esperar.
Tão somente assim venceremos ao mundo como o venceu Cristo. Não teremos em conta o êxito, senão o testemunho da Verdade e o exemplo dos fazedores da Verdade.
O Nacionalismo que não se propõe reconstruir a Pátria em Cristo, não é conforme com a realidade nem com a verdade do homem; não é tampouco conforme com a origem, a raiz e a essência do povo brasileiro.
Perder nesta Cruzada é ganhar, porque do fracasso e da derrota se irradiará o exemplo triunfal e arrebatador sobre as gerações futuras.
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