Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Don Camillo e Peppone: saga completa (legendada)


"Nas páginas de Guareschi encontramos não apenas a descrição de um modo de vida simples e humano que se foi, definitivamente ao que parece, em benefício da artificialidade asfixiante das grandes cidades, senão um conhecimento profundo do coração do homem e uma aproximação real, e não apenas discursiva, aos rincões mais nobres da alma, ocultos abaixo à névoa persistente de nossas misérias. Quiçá o grande triunfo de Guareschi sobre o comunismo consistiu em demonstrar, por meio dessa ausência total de ódio autêntico entre Peppone e Don Camillo, que o marxismo não é senão um câncer para a sociedade, e necessita apodrecer todas e cada uma das células desta para conseguir que reine entre os homens o rancor, a ira e o ressentimento mútuo, e que na medida em que subsistam nela quaisquer restos de princípios ou valores elevados (sempre) seu triunfo será somente aparente."

(Carmelo López-Arias Montenegro, Las tribulaciones de Don Camillo, en revista Roma Aeterna nº 123, Marzo 1993. Tradução minha.)

Uma tradução muito fiel -mas parcial- da obra de Guareschi, que se favorece não somente da herança viva de uma tradição que o mesmo Guareschi supervisiona, senão pela estupenda encarnação conseguida em Fernandel e Gino Cervi. Uma aproximação ao pequeno mundo de Don Camillo, que se completa em profundidades metafísicas não mais aptas para as telas de cinema nem espectadores abúlicos [n.d.t.: penso que se refira à obra citada abaixo, Don Camillo y los jóvenes de hoy, que não havia ainda sido levada ao cinema], numa obra extensa e perdurável do pensador e humorista italiano:

"Não, Senhor. Só quero dizer que hoje as pessoas crêem somente no que vêem e tocam. Mas há coisas essenciais que não se vêem nem se tocam: amor, bondade, piedade, honestidade, pudor, esperança. E fé. Coisas sem as quais não se pode viver. Esta é a auto-destruição a que me refiro. Me parece que o homem está destruindo todo seu patrimônio espiritual, a Única riqueza verdadeira que havia acumulado em milhares de anos. Um dia não distante se encontrará como o selvagem das cavernas. As cavernas serão altos arranha-céus cheios de maravilhosas máquinas, mas o espírito do homem será o de selvagem das cavernas."

(Giovanni Guareschi, “Don Camillo y los jóvenes de hoy”, cit. por C. López-Arias Montenegro, Ob. cit. Tradução minha.)

Veja os cinco filmes completos, em alta definição e legendados:

Título original: Don Camillo.
Título em inglês: The Little World of Don Camillo.
Subtitled in brazilian portuguese, english, spanish, romanian, german, greek, and hungarian.

Título original: Le retour de Don Camillo.
Título em inglês: The Return of Don Camillo.
Título em italiano: Il ritorno di Don Camillo.
Subtitled in brazilian portuguese, english, spanish, and german.

Título original: Don Camillo e l'onorevole Peppone.
Título em inglês: Don Camillo's Last Round.
Subtitled in brazilian portuguese, english and rumanian.

Título original: Don Camillo monsignore ma non troppo.
Título em inglês: Don Camillo: Monsignor.
Subtitled in brazilian portuguese.

Título original: Il compagno Don Camillo.
Título em inglês: Don Camillo in Moscow.
Subtitled in brazilian portuguese.







terça-feira, 22 de março de 2016

C’est la débâcle de ce monde uni...

Vista lá de cima, a terra parece nua e morta; quando o avião desce, ela se veste. Os bosques voltam a estofá-la; os vales e as colinas nela imprimem uma ondulação: a terra respira. A montanha que se sobrevoa - peito de gigante deitado - incha-se quase até o avião.

Agora próximo, o curso das coisas se acelera, como a torrente sob uma ponte. É a derrocada deste mundo unido. Árvores, casas, vilas separam-se do horizonte liso e são arrastadas atrás dele, à deriva.

Antoine de Saint-Exupèry, Courrier Sud.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Pensar no futuro


"Bienaventurados aquellos que han escuchado la misa en las catacumbas. Para un templo temo menos a los furiosos que quieren demoler, que a los fieles que sólo piensan en la sopa. Antaño, los padres cristianos preferían sacrificar a sus hijos a la miseria antes que abjurar. Hoy en día los exponen más gustosamente a verlos perder la fe que a no contar con un diploma. Se compra fríamente un título de abogado o de médico al precio de cien pecados mortales que pueden cometer antes de obtenerlo. A eso le llamamos “pensar en su futuro”: esta palabra dice todo. Cuando éramos cristianos, el futuro estaba en el cielo. Pues ya no lo está más, ahora está en las tiendas, en el comercio, en los negocioss, en el lodo: y para llegar allí, pasan sobre el crucifijo. Ya no hay más cristianos, pues ya no hay fe. Si hubiera fe no se expondría las almas con tanta villanía y veríamos lo que ya no vemos: hombres”.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Saint-Exupéry e a necessidade de criar laços

Por Fernando Rodrigues Batista

"O desarraigo é a enfermidade mais maligna das sociedades humanas”.
Simone Weil

Conforme acentuou Jean Ousset, a revolução está em todas as coisas: nas coisas do espírito, da cultura, da religião. Em todas elas a Revolução dissolve tudo o que pode ser substancia de verdade e não conserva mais que o aspecto superficial, o aspecto evolutivo, o aspecto perpetuamente cambiante – e, portanto, ‘contestável’ -, dos seres e das coisas.
Frente a esta cultura, contra esta cultura, temos em primeiro lugar, temos acima de tudo, que opor a paixão pela verdade, condição elementar do amor ao bem e persecução incansável do belo.
Nesse sentido, reputamos indispensável consoante vaticinou Louis Daujarques, recobrar aquela prudência, que não é a de ontem nem a de amanhã, senão de sempre, e talvez voltemos a encontrar nesses caminhos eternos muitos mestres de seu tempo. A ela corresponde fazer brilhar novamente e dar vida a Bourget, a Barres, a Daudet como a Claudel, a Bernanos e a Péguy, a Chesterton e a Saint-Exupéry.
Hoje estamos presenciando, segundo Gustave Thibon, a agonia da Cidade dos homens. O liberalismo, ao isolar os indivíduos, e o estatismo, ao reagrupá-los em vastos conjuntos artificiais e anônimos, transformaram a sociedade em um imenso deserto cujas cegas areias são arrebatadas nos torvelinhos do vento da história. E o homem, vítima deste fenômeno de erosão, não tem já morada no espaço (se vê, ao mesmo tempo, na prisão e no desterro), nem ponto de referencia em um tempo pelo que corre cada vez mais depressa sem saber aonde vai. Assim, o homem "perde o essencial sem dar-se conta do que perdeu”. (Saint-Exupéry)
Em um mundo que se faz deserto, como aludia o próprio Saint-Exupéry, dominado por tecnocratas, ou pela governança, tema tão afeito aos pensadores espanhóis como o saudoso Juan Vallet de Goytisolo, Dalmacio Negro e Miguel Ayuso, se faz necessário trazer novamente à tona uma filosofia do arraigo.
Arraigar significa criar raízes. Se observarmos a natureza humana, a necessidade de criar raízes é patente. O homem é um ser inteligente, não pode tomar as coisas que lhe rodeiam como um animal ou qualquer outro ser que se move somente pelos instintos. Necessita encontrar o sentido das coisas, transcender para além de sua mera aparência; necessita também dar um sentido à sua vida, de tal modo que o homem não pode desenvolver-se plenamente em uma sociedade com a qual não se identifica, com a qual não tenha nenhum laço e que ao mesmo tempo lhe impossibilite de criar laços permanentes com as coisas ao seu entorno. Assim, como faz notar Rafael Gambra, o homem vem a ser entrega e intercambio com a sociedade ao seu entorno, assim cria suas raízes. Raízes familiares, ideológicas, patrimoniais. Essas raízes são como o tecido que forma a vida de um homem e que permanece uma vez que ele desapareça. Quando o homem nasce, não nasce isolado. Nasce em um entorno determinado, de pais determinados, e herda uma bagagem de costumes, idéias, caracteres etc. Como bem frisou Juan Vallet de Goytisolo, seguindo a esteira de Francisco Elias de Tejada, o homem é herdeiro, não só pelo sangue, senão também por uma série de aquisições de ordem moral, intelectual e material. Esta herança, estes conhecimentos em profundidade, que recebe o homem como fruto de experiências de gerações anteriores, os vem obtendo primordialmente da família e nas entidades humanas menores intermediárias, em forma de tradições adequadas ao meio natural onde se encontra arraigado. Costumes que encarnam saberes herdados, dotando-os de penetração e de pressão social para dar-lhes firmeza e eficiência.
Como sublimemente ensina Simone Weil, o arraigo é talvez a mais importante e talvez a mais desconhecida necessidade da alma humana. É uma das mais difíceis de definir. Um ser humano tem uma raiz por sua participação real, ativa e natural na existência de uma coletividade real, que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do porvir. Participação natural, produzida automaticamente pelo lugar, o nascimento, a profissão, o entorno. Cada ser humano tem necessidade de ter múltiplas raízes. Tem precisão de receber quase a totalidade de sua vida moral, intelectual, espiritual, por intermédio dos ambientes que naturalmente forma parte.
E é por isso que, como preconizou Rafael Gambra em seu livro “El silencio de Dios”, cabe conceber a vida humana como uma criação de laços (cognoscitivo, volitivos, ativos), entre o Eu e as coisas. Tais laços são, para o sujeito, compromissos (engagements), e a respeito das coisas (apprivotsement). Cada homem vem a fazer o seu próprio mundo, sua vida; e as coisas se fazem assim substância humana. Deste modo, a Cidade – o habitáculo humano – há de ser criada pelo que Saint-Exupéry chama o fervor, isto é, o esforço e a entrega guiados pelo amor, em cuja obra o sujeito intercambia sua vida com sua criação e esta lhe sobrevive e fecunda e alberga a vida dos que lhe seguirão.
Pelo contrário, continua Rafael Gambra, pelo desarraigo perde o homem ‘o bem mais profundo, aquilo que constitui propriamente sua existência de homem: o laço misterioso e cordial com as coisas de seu mundo, pelo qual estas se fizeram valiosas para ele e outorgam arraigo e sentido para a sua vida. O empobrecimento da personalidade, a trivialização dos desejos e a massificação humana são suas conseqüências visíveis.
Os laços afetivos que unem o homem de hoje com os seres e as coisas, são tão pouco sensíveis, tão pouco densos que não se sente sua ausência como antes”, disse Saint-Exupéry em “Carta a um refém”.
O homem se identifica com as coisas concretas que o rodeiam, de tal modo que não as pode substituir por nenhuma outra, por muito parecida que seja.  É o que tão admiravelmente expressa Saint-Exupéry na conversa da raposa com o pequeno príncipe, aonde conclui dizendo: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.” “Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.” “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
É por isso que o homem pode chegar a morrer por estas coisas que o rodeiam, porque a perda delas, uma vez que convertida em raízes, significam para ele mais que a própria vida. O ideal, pois, para um pleno desenvolvimento do homem, seria uma sociedade que fomentasse a criação desses vínculos. E, sem embargo, vemos que todas as teorias políticas modernas fomentaram exatamente o contrário.
Faz já algum tempo uma autora lembrou que um famoso poeta descreveu a sociedade atual com a seguinte frase: “Um mundo como uma arvore destroçada, uma geração desarraigada, uns homens sem mais destino que escorar ruínas...”, e salientou que a nós corresponde lutar para que, com a ajuda de Deus, se converta no ideal que descreveu Saint-Exupéry em sua Cidadela: “Comunidade de laços, de lembranças, de esperanças, onde cada passo e cada tempo têm seu sentido”. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Joaquim Nabuco: a infância em Massangana

Joaquim Nabuco
O traço todo da vida é para muitos um desenho da criança esquecido pelo homem, mas ao qual ele terá sempre que se cingir sem o saber... Pela minha parte acredito não ter nunca transposto o limite das minhas quatro ou cinco primeiras impressões... Os primeiros oito anos da vida foram assim, em certo sentido, os de minha formação, instintiva ou moral, definitiva... Passei esse período inicial, tão remoto, porém mais presente do que qualquer outro, em um engenho de Pernambuco, minha província natal. A terra era uma das mais vastas e pitorescas da zona do Cabo... Nunca se me retira da vista esse pano de fundo que representa os últimos longes de minha vida. A população do pequeno domínio, inteiramente fechado a qualquer ingerência de fora, como todos os outros feudos da escravidão, compunha-se de escravos, distribuídos pelos compartimentos da senzala, o grande pombal negro ao lado da casa de morada, e de rendeiros, ligados ao proprietário pelo benefício da casa de barro que os agasalhava ou da pequena cultura que ele lhes consentia em suas terras. No centro do pequeno cantão de escravos levantava-se a residência do senhor, olhando para os edifícios da moagem, e tendo por trás, em uma ondulação do terreno, a capela sob a invocação de São Mateus. Pelo declive do pasto árvores isoladas abrigavam sob sua umbela impenetrável grupos de gado sonolento. Na planície estendiam-se os canaviais cortados pela alameda tortuosa de antigos ingás carregados de musgos e cipós, que sombreavam de lado a lado o pequeno rio Ipojuca. Era por essa água quase dormente sobre os seus largos bancos de areia que se embarcava o açúcar para o Recife; ela alimentava perto da casa um grande viveiro, rondado pelos jacarés, a que os negros davam caça, e nomeado pelas suas pescarias. Mais longe começavam os mangues que chegavam até à costa de Nazaré.

Durante o dia, pelos grandes calores, dormia-se a sesta, respirando o aroma, espalhado por toda a parte, das grandes tachas em que cozia o mel. O declinar do sol era deslumbrante, pedaços inteiros da planície transformavam-se em uma poeira de ouro; a boca da noite, hora das boninas e dos bacuraus, era agradável e balsâmica, depois o silêncio dos céus estrelados, majestoso e profundo. De todas essas impressões nenhuma morrerá em mim. Os filhos de pescadores sentirão sempre debaixo dos pés o roçar das areias da praia e ouvirão o ruído da vaga. Eu por vezes acredito pisar a espessa camada de canas caídas da moenda e escuto o rangido longínquo dos grandes carros de bois...

Emerson quisera que a educação da criança começasse cem anos antes dela nascer. A minha educação religiosa obedeceu certamente a essa regra. Eu sinto a idéia de Deus no mais afastado de mim mesmo, como o sinal amante e querido de diversas gerações. Nessa parte a série não foi interrompida. Há espíritos que gostam de quebrar todas as suas cadeias, e de preferência as que outros tivessem criado para eles; eu, porém, seria incapaz de quebrar inteiramente a menor das correntes que alguma vez me prendeu, o que faz que suporto cativeiros contrários e menos do que as outras uma que me tivesse sido deixada como herança. Foi na pequena capela de Massangana que fiquei unido à minha.

As impressões que conservo dessa idade mostram bem em que profundezas os nossos primeiros alicerces são lançados. Ruskin escreveu esta variante do pensamento de Cristo sobre a infância: "A criança sustenta muitas vezes entre os seus fracos dedos uma verdade que a idade madura com toda sua fortaleza não poderia suspender e que só a velhice terá novamente o privilégio de carregar." Eu tive em minhas mãos como brinquedos de menino toda a simbólica do sonho religioso. A cada instante encontro entre minhas reminiscências miniaturas que por sua frescura de provas avant la lettre devem datar dessas primeiras tiragens da alma. Pela perfeição dessas imagens inapagáveis pode-se estimar a impressão causada. Assim eu via a Criação de Miguel Ângelo na Sistina e a de Rafael nas Loggie³, e, apesar de toda a minha reflexão, não posso dar a nenhuma o relevo interior do primeiro paraíso que fizeram passar diante dos meus olhos em um vestígio de antigo Mistério popular. Ouvi notas perdidas do Angelus na Campanha romana, mas o muezzin íntimo, o timbre que soa aos meus ouvidos à hora da oração, é o do pequeno sino que os escravos escutavam com a cabeça baixa, murmurando o Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Este é o Millet inalterável que se gravou em mim. Muitas vezes tenho atravessado o oceano, mas se quero lembrar-me dele, tenho sempre diante dos olhos, parada instantaneamente, a primeira vaga que se levantou diante de mim, verde e transparente como um biombo de esmeralda, um dia que, atravessando por um extenso coqueiral atrás das palhoças dos jangadeiros, me achei à beira da praia e tive a revelação súbita, fulminante, da terra líquida e movente... Foi essa onda, fixada na placa mais sensível do meu kodak infantil, que ficou sendo para mim o eterno clichê do mar. Somente por baixo dela poderia eu escrever: Thalassa! Thalassa!

Meus moldes de idéias e de sentimentos datam quase todos dessa época. As grandes impressões da madureza não têm o condão de me fazer reviver que tem o pequeno caderno de cinco a seis folhas apenas em que as primeiras hastes da alma aparecem tão frescas como se tivessem sido calcadas nesta mesma manhã... O encanto que se encontra nesses eidoli grosseiros e ingênuos da infância não vem senão de sentirmos que só eles conservam a nossa primeira sensibilidade apagada... Eles são, por assim dizer, as cordas soltas, mas ainda vibrantes, de um instrumento que não existe mais em nós...

Joaquim Nabuco

---
- John Ruskin, escritor inglês que se dedicou especialmente a assuntos de estética em que teve grande influência na era vitoriana;
- Muezzin, árabe, anunciador muçulmano da hora da oração;
- Thalassa, exclamação de alegria dos dez mil gregos dirigidos por Xenofonte quando viram o mar, após dezesseis meses de retirada;
- Eidoli, grego, plural de eidolon; figura, imagem.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Procuras um amigo?

Disse então a raposa ao principezinho:
- Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me disse ela.


- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos, Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa, É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!


Le Petit Prince
Antoine Saint-Exupèry

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A mór Beleza


Dos Céus à terra desce a mór beleza,
une-se à carne nossa e fá-la nobre;
e, sendo a humanidade dantes pobre,
hoje subida fica à mór alteza.

Busca o Senhor mais rico a mór pobreza
que, como ao mundo o seu amor descobre,
de palhas vis o corpo tenro cobre,
e por elas o mesmo Céu despreza.

Como Deus em pobreza à terra desce?
O que é mais pobre tanto lhe contenta
que só rica a pobreza lhe parece.

Pobreza este Presépio representa.
Mas tanto, por ser pobre, já merece
que quanto é pobre mais, mais lhe contenta.

(Camões, Soneto 136)


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Um patrono à altura


Vivemos atualmente a dissolução de uma sociedade edificada ao longo de milênios. É uma longa e bela construção, fundada na filosofia grega e no personalismo judaico-cristão, e burilada ao longo dos séculos. Essa sociedade nos deu a noção de que todos têm direitos inalienáveis; que a natureza pode e deve ser estudada e, ao mesmo tempo, preservada; que o Belo e o Bom têm valor. Deu-nos as universidades, a democracia representativa, o reconhecimento da dignidade dos mais fracos.

Este imenso patrimônio cultural é a herança a que cada brasileiro tem – ou teria – direito. O que vemos, contudo, é o oposto. Mais de um terço dos universitários são analfabetos funcionais. As escolas servem à doutrinação política e à “desmitificação” dos valores da nossa sociedade, deixando de lado o ensino e a preservação da cultura.

Paulo Freire, um dos maiores culpados deste estado de coisas no Brasil, recebeu, com razão, o título de “Patrono da Educação Brasileira”. É justo que ele seja o patrono de uma “educação” que não é capaz de ensinar a ler e escrever, mas que martela nos alunos uma visão tão deturpada do mundo que é mais fácil encontrar dez estudantes que creiam que a luta de classes é uma lei da natureza que achar um que saiba enunciar a Segunda Lei da Termodinâmica.

A História e a Geografia passam a ser apenas denúncia de supostas monstruosidades; o vernáculo, na melhor das hipóteses, uma tentativa de reproduzir a verbalidade. As ciências – deixadas quase de lado –, uma sucessão de conteúdos “bancários”, no dizer dos seguidores do falso profeta recifense. Faz-se força para enfiar alguma ideologia nas ciências, mas não há luta de classes na Química ou opressão econômica na Física. Fica difícil.

Só o que fez este triste patrono foi descobrir que o aluno é um público cativo para a doutrinação marxista. A educação deixa de ser uma abertura para o mundo, uma chance de tomar posse de nossa herança cultural, e passa a ser apenas a isca com a qual se há de fisgar mais um inocente útil para destruir a herança que não conhece.

As matérias pedagógicas da licenciatura resumem-se hoje à repetição incessante, em palavras levemente diferentes, das mesmas inanidades iconoclastas. Os cursos da área de Humanas, com raras exceções, são mais do mesmo, sem outra preocupação que não acusar aquilo que não se dá ao aluno a chance de conhecer. O que seria direito dele receber como herança.

Paulo Freire é o patrono da substituição de conhecimento por ideologia, de aprendizado por lavagem cerebral. Merece o título.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Lua, por Tasso da Silveira

Lua de perigeu, na noite de Sábado (5) no Rio de Janeiro.

Lua! Canção de mágoa, triste endeixa
de saudade, no azul do céu perdida...
Companheira dos que vão sós na vida,
dos que não têm quem lhes escute a queixa...

O teu frio palor na alma nos deixa
a tristeza profunda e comovida
de quando a alguém a eterna despedida
vamos levar, e um túmulo se fecha...

Errante e só pela infinita altura,
há milênios que vens, ó Lua triste,
iluminando a humana desventura...

E parece que em ti se congelaram
todos os ais de súplica que ouviste
e a ânsia dos olhos todos que te olharam...

Tasso da Silveira

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O nome, a imagem, e o objetivo

Caros amigos e leitores, o Courrier Sud é uma idéia ainda em formação: trata-se de um blog simples, que terá por objetivo difundir textos, idéias e notícias sobre variados assuntos, porém sempre em um contexto legitimamente católico e politicamente conservador.

O nome "Courrier Sud" surgiu da obra homônima de Antoine de St. Exupèry, grande literata, pensador e católico francês, que em 1929 escreveu-a. Além de ser uma alusão à minha posição de sulista em nosso País, e sendo assim, trata-se este blog de um Correio (do) Sul, que procurará trazer boas novas para vós.

A imagem que magnificamente adorna o cabeçalho do blog, é uma representação da pausa para a Oração do Angelus, numa propriedade rural européia, onde o casal de camponeses, mesmo cansados após um dia de trabalho, se inclinam em sinal de reverência à Nossa Santíssima Mãe, ao rezar as três Ave-Marias que compõem tão singela e antiga saudação diária. Trata-se de uma imagem, que harmonicamente nos mostra quão rica é a vida no campo, que na sua simplicidade, ultrapassa por vezes a sabedoria mundana da realidade urbana. A pintura pertence ao romantismo francês, e por Jean-François Millet em 1859 foi nos dada.

Caríssimos, tendo estabelecido estes pontos, gostaria de pedir a colaboração e paciência dos leitores e amigos, quanto às postagens e o design do blog, que está apenas no seu início.

In Christo,
André R. Rinaldi
Foz do Iguaçu, 5 de Janeiro de 2012