sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Cinema - The Rope (1948)

Aos leitores que leram meu último post, tiveram a oportunidade de ler uma famosa frase, do grande cineasta britânico, Alfred Hitchcock.

Hitchcock, diretor e produtor de dezenas de filmes, foi um marco na história do cinema. Até hoje seus filmes são muito bem posicionados em vários rankings do âmbito, como o Top250 do Internet Movie DataBase, onde duas de suas películas estão entre os 30 primeiros.


Os filmes de Hitchcock, tem em suas características principais, serem realistas, como janelas pela qual possamos tomar conhecimento de determinadas realidades, ou certas formas de pensar ou viver. Hitchcock era um fervoroso católico, e sempre deixava claro que suas atitudes, portanto também suas produções, eram correspondentes à sua Fé.

"Minha atitude diante da vida responde, como é natural, à minha formação e minha Fé. Não faço cinema deliberada e concretamente católico, porém me parece, que ninguém duvidará de que meus filmes foram feitos por um católico." (Hitchcock em entrevista por Carlos Fernández Cuenca, Festival de San Sebastián, España, 1958).

Uma de suas mais aclamadas produções, foi este thriller de 1948: The Rope, o qual chegou aos cinemas brasileiros sob o título de "Festim Diabólico".

The Rope, marcou o cinema de Hitchcock, sendo sua primeira película colorida, tratou-se também de um desafio, o qual foi belamente vencido. Sua gravação foi feita em plano-sequência, ou seja, em tomadas contínuas de 4 a 10 minutos cada. Em toda a gravação, houveram apenas oito cortes, e foram editadas de forma a possibilitar ao expectador, de que o filme fosse uma sequência perfeita, sem pausas de gravação. Sensação esta, potencializada pelas ótimas atuações principais de James Stewart, John Dall, Farley Granger, Edith Evanson e a lindíssima Joan Chandler.

O filme em si, é uma obra de arte incrível. Além do mais, a mensagem que este nos passa, é também mui rica. O roteiro nos faz pensar sobre o impacto das idéias na sociedade: a história circunda um assassinato premeditado, e baseado em um má filosofia, pela qual os "super-homens" teriam liberdade de destruírem outras vidas, as quais consideram fúteis para a sociedade e o progresso. Os assassinos, inspiram-se nas obras do pensador ateu Nietzsche. Teorias estas, que durante a película são postas à prova, pelo professor Rupert Cadell (James Stewart).

Hitchcock, nos faz pensar: se uma má filosofia, pode conduzir dois jovens inteligentes e universitários a cometer tão medonho crime, o que não faria uma má filosofia, se controlada por homens impiedosos fosse imposta massivamente a homens sem formação?

Para os interessados, os links de como adquirir ou assistir a obra estarão logo abaixo.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Cinema - Thérèse: The Story of Saint Thérèse of Lisieux (2004)

Caros leitores, uma das expressões de arte que mais me fascinam são as películas. Nesta arte, como em todas as outras, há suas expressões que fogem ao belo e ao bom, tornando-se assim má arte, filmes vazios, ou apenas "fotografias de gente que falam" como dizia sabiamente Hitchcock; porém, também há suas expressões que convergem ao belo e ao bom, tornando-se dessa forma, um sadio divertimento para alma humana, e fruto de edificação para nossa vida.

Procurarei, de forma bastante humilde, como é o meu conhecimento neste âmbito, postar aqui no blogue algumas isoladas exposições do bom cinema, e quem sabe críticas, e textos sobre esta arte viva.

Gostaria de iniciar, indicando primeiramente um filme estado-unidense de 2004, chamado Thérèse, o qual marcou-me profundamente, por ser eu, devoto da Santa que inspirou esta película.

O filme retrata a vida da grande Santa Teresinha do Menino Jesus, a mais jovem Doutora da Igreja. Trata-se de um pequeno resumo dos principais fatos de sua vida, fatos estes tão belamente expostos em sua auto-biografia, publicada sob o título "A História de Uma Alma" aqui no Brasil.

A qualidade do roteiro é muito boa, prendendo-se à uma sequência bem estudada da vida desta Santa; a fotografia e a atuação também são de boa qualidade, tornando as cenas vivas e incentivando-nos a acompanhar o desenrolar da história. O que deixa um pouco a desejar, é a qualidade da aproximação histórica, onde retratando-se uma história ocorrida na sua maior parte na França do séc. XIX, os atores falam inglês americano, mas trata-se apenas de um detalhe, que encareceria muito a produção.

Para aqueles que se sentiram encorajados a ver este filme, postarei abaixo links para acessá-lo, e também para comprar o livro da auto-biografia que rendeu esta bela produção do Cinema.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Santo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico Universal

Extraído de 'A Existência na Filosofia de S. Tomás', de Etienne Gilson.

A natureza e o significado da obra de Tomás de Aquino não podem ser cabalmente compreendidos por aqueles que a abordam, de maneira direta, como se nada houvera antes dela. Quando começou a ensinar a Teologia, e, mais tarde, a Filosofia, Tomás de Aquino estava bem ciente da situação geral em que seu trabalho iria colocar-se.

Até os últimos anos do século XII, quando o mundo cristão descobriu a existência de interpretações não cristãs do universo, a Teologia cristã nunca se interessara pelo fato de que uma interpretação não cristã do mundo, como um todo, inclusive do homem e do seu destino, fosse ainda uma possibilidade aberta. Quando Tomás de Aquino começou a construir sua doutrina, vale dizer, de 1253 a 1254, a descoberta da filosofia grega pelo ocidente cristão era fato consumado — e nada devia ao próprio Tomás de Aquino. Sem dúvida, seus últimos comentários sobre Aristóteles muito contribuíram para mais exata interpretação da doutrina do filósofo, mas quem pretendesse que S. Tomás, a essa altura, por volta de 1250, estivesse descobrindo o mundo dos filósofos gregos, simplesmente se revelaria atrasado de 50 anos pelo menos. Nessa época todos os mestres cristãos sabiam que era possível apresentar uma explicação não-cristã do mundo, e sabiam em que ela consistia, ao menos em linhas gerais. Mas a questão da atitude apropriada a tomar-se a propósito desta explicação era complexa. Cada mestre teve de expor sua resposta a essa indagação.

Para um homem do século XIII, na Europa Ocidental, que era “ser filósofo”? Entre muitas outras coisas ser um pagão. Filósofo era um daqueles que, nascidos antes de Cristo, não puderam informar-se a respeito da verdade da Revelação Cristã. Tal era o caso de Platão e Aristóteles. O Filósofo, por excelência, era um pagão. Outros, nascidos depois de Cristo, eram infiéis. Tal o caso de Alfarabi, Avicena, Gabirol e Averróis. De qualquer modo, pode-se dizer que a primeira conotação da palavra filósofo era: pagão. Nada há de absoluto no uso das palavras: sem dúvida podem encontrar-se exceções. Boécio, por exemplo, foi às vezes chamado de “filósofo” e contado entre eles. Era, porém, excepcional este emprego do termo. Ao contrário, casos sem número se podem citar em que é certa a conotação pagã da palavra “filósofo”.

Cumpre, todavia, notar que isso era uma questão de costume, não de definição. Ao definir a Filosofia, nenhum teólogo do século XIII teria dito que ela é, por essência, pagã. Convidado a definir um filósofo, o mesmo teólogo provavelmente não diria que alguém não poderia ser filósofo se não fosse pagão. Ressaltamos apenas que, de costume, quando o teólogo dizia “os filósofos” ou “um filósofo”, tinha quase sempre em mente um homem que, não sendo cristão, dedicara sua vida ao estudo da Filosofia.

O paralelo entre “philosophi” e “sancti“, usado com freqüência pelos teólogos do século XIII, confirma nossa observação. Alberto Magno não hesita em citar duas séries diferentes de definições da alma: uma dos sancti, outra dos philosophi. Um filósofo, portanto, não era um “santo” (santo, não no sentido de canonizado, mas no de uma pessoa santificada pela graça do batismo cristão). Se um teólogo julgasse conveniente recorrer à Filosofia nos seus trabalhos teológicos, como foi o caso de S. Tomás de Aquino, não era normalmente chamado “filósofo”, e, sim, philosophans theologus (teólogo filosofante), ou, simplesmente, philosophans (um filosofante). A julgar pelo modo de falar, parece que não passava pela mente dos teólogos do século XIII que um homem pudesse ser a um tempo ambas as coisas: “filósofo” e “santo”.

Uma das conseqüências disso era que a Filosofia, na sua realidade concreta, se apresentava ao espírito de muitos teólogos como uma massa indiferenciada em que se encontrariam as lições de quase todos aqueles que, ou por não estarem ao corrente da verdade cristã, ou por não a terem aceito, tentaram obter uma visão consistente do mundo e do homem com os recursos apenas da razão. Este conglomerado filosófico é bem representado na enciclopédia de S. Alberto Magno, cujos elementos, tomados de todas as fontes disponíveis, se fundem e se reduzem a um espécie de unidade livre. Se conhecêssemos melhor tais enciclopédias, como a monumental Sapientiale de Tomás de York, elas nos dariam uma visão mais nítida do que representava a palavra filosofia para um teólogo do século XIII. Aristóteles está lá, especialmente na interpretação averroista; Platão, Avicena, Cundissalino, Gabirol, Cícero, Macróbio, Hermes Trismegisto, em resume, está representada toda a literatura filosófica disponível naquela época.

Menção especial deve fazer-se à influência dos mestres em artes nas primeiras universidades européias. Devendo ensinar a doutrina de Aristóteles, precisavam averiguar antes o sentido exato dos seus escritos. Ao fazê-lo, naturalmente tinham de dissociar deles os elementos de fé e de teologia cristã, mas tinham de dissociar também os elementos estranhos introduzidos pelos intérpretes. É revelador o fato de S. Tomás de Aquino, no Comentário das Sentenças de Pedro Lombardo, considerar ainda o Liber de Causis um autêntico trabalho de Aristóteles. Trata-se de algo mais do que um mero caso de falsa atribuição. Para atribuir o Liber de Causis plotiniano a Aristóteles é preciso que se tenha uma noção muitíssimo vaga do sentido global da metafísica de Aristóteles.

Nos anos em que esteve na Itália, de 1259 a 1268, S. Tomás de Aquino teve à sua disposição as traduções de obras de Aristóteles, ou as revisões de traduções, feitas por Guilherme de Moerbeka, e aproveitou-se dessa oportunidade para escrever comentários à doutrina do Filósofo. É difícil caracterizar em poucas palavras o novo Aristóteles visto por S. Tomás. Alguns de seus traços, pelo menos, no entanto, são facilmente visíveis. Rigorosamente falando, não é exato dizer que Tomás batizou Aristóteles. Ao contrário, em todo lugar em que Aristóteles ou contradiz a verdade cristã (eternidade do mundo) ou simplesmente a desconhece (criação ex nihil), S. Tomás ou o diz com franqueza, ou, ao menos, não lhe atribui o que ele não disse de modo expresso. Por exemplo, é notável que, ao comentar a Metafísica de Aristóteles, na qual a causalidade do Primeiro Motor é tão importante, S. Tomás de Aquino não usou uma vez sequer a palavra criação. Aristóteles não enunciara toda a verdade filosófica, e S. Tomás estava bem ciente disso.
Por outro lado, S. Tomás de Aquino viu com clareza que, nos escritos de Aristóteles, tais como os temos, alguns pontos não estão determinados de maneira completa. Em tais casos, nenhuma razão há para que a intrepretação da doutrina atribuída ao filósofo seja escolhida necessariamente no termo que menos facilite reconciliá-la com os ensinamentos da fé Cristã. No problema do intelecto agente, por exemplo, havia em Averroes um perceptível endurecimento da posição de Aristóteles. Tomás não achou útil tornar o aristotelismo mais frontalmente oposto à verdade cristã do que já o era nos trabalhos autênticos do próprio Aristóteles. Em resumo, pode-se dizer que Tomás removeu de Aristóteles todos os obstáculo à Fé Cristã não evidentes nos escritos dele. Seja como for, se batizou Aristóteles, não o fez nos “Comentários”, e sim, antes, nos seus escritos pessoais de Teologia. Assim procedendo, o batismo produziu seu efeito normal: primeiro teve de morrer o vetus homo para que nascesse um novo homem. O nome deste novo cristão havia de ser um nome cristão. Não seria Aristóteles: o seu verdadeiro nome seria S. Tomás de Aquino.

Depois de remover tais obstáculo desnecessários, S. Tomás de Aquino encontrou-se em posição bem diferente ao dos demais teólogos. Sem chegarmos ao ponto de afirmar que este Aristóteles purificado se identificou com a própria filosofia de S. Tomás de Aquino, devemos, pelo menos dizer que Aristóteles, para ele, se torno a verdadeira encarnação da verdade filosófica. S. Tomás viu, então, até onde poderia ir a filosofia na linha do pensamento. Além disso — fato muito importante — obtivera uma noção clar do que é filosofia, e isto despojou-o de muitas facilidade de que os teólogos anteriores haviam feito uso generoso.

S. Tomás não podia contentar-se com recorrer, em cada caso particular, à filosofia que, naquele ponto preciso, fosse mais facilmente conciliável com o cristianismo. Por exemplo: não podia aceitar a definição da alma humana formulada por Aristóteles, e, ao mesmo tempo, buscar em Platão a demonstração da imortalidade da alma. É importantíssimo ter em mente, ao abordar os trabalhos de S. Tomás de Aquino, que ele não mais podia contentar-se com um ecletismo filosófico na elaboração de sua teologia, uma vez que compreendera o que é, realmente, uma visão filosófica do mundo. Se sua teologia devia utilizar-se da Filosofia então cumpria-lhe estabelecer sua própria filosofia. Em outras palavras, como teólogo, S. Tomás precisava de um conjunto de princípios filosóficos aos quais recorreria sempre que necessário no curso dos trabalhos teológicos. Em termos gerais, estes princípios podem considerar-se “uma reinterpretação — das noções fundamentais da metafísica de Aristóteles, à luz da verdade cristã.” As três noções — ser, substância e causa eficiente — podem definir-se, praticamente no tomismo, pelos mesmos termos da doutrina aristotélica: certo é, porém, que as velhas palavras de Aristóteles recebem, no tomismo, sentido inteiramente novo.

Daí vem a possibilidade, sempre aberta, de reduzir-se a doutrina de S. Tomás de Aquino à de Aristóteles. Pelo menos podem atribuir-se corretamente duas metafísicas diferentes a S. Tomás, a metafísica de Aristóteles ou a que é própria a S. Tomás de Aquino — pois que a linguagem técnica permanece praticamente a mesma.
O fato acarretou duas conseqüências para a teologia tomista. Primeiro, S. Tomás teve de submeter a um exame crítico o ecletismo filosófico de seus predecessores. Como ele não se contentaria, ao discutir problemas teológicos, com recorrer, em cada caso particular, à filosofia que lhe permitisse reconciliar razão e revelação como mínimo esforço possível, teve de eliminar todas as posições teológicas que, aceitáveis embora no ecletismo, eram incompatíveis com a sua própria concepção de filosofia.

Por outro lado, como a Teologia se associa intimamente à vida religiosa, nenhum teólogo poderia riscar, pura e simplesmente, tudo quanto, nesta matéria, se fez e se ensinou antes dele. Teve S. Tomás, portanto, de reinterpretar as posições de seus predecessores à luz dos seus próprios princípios filosóficos. Daí a curiosa — mas inevitável — perspectiva que o faz aparecer como alguém que constantemente se equivoca sobre a doutrina dos seus predecessores. Que isto seja ilusão, percebe-se facilmente pelo fato que o resultado do que se chama a “sua interpretação” é sempre o mesmo: fazer os predecessores ensinarem uma doutrina que muito se assemelha com aquela que ele próprio está ensinando. S. Tomás de Aquino tem linguagem própria, mas está sempre disposto a aceitar a linguagem de qualquer outro, contanto que seja possível fazê-la dizer aquilo que ele próprio tem como verdadeiro. Tal constância na orientação do método interpretativo não pode resultar de uma série de erros acidentais de interpretação. O que S. Tomás de Aquino faz dizer a Boécio, ou o que ele atribui ao autor do Liber de Causis, às vezes contra a evidência histórica positiva, expressa simplesmente o desejo de deixar intacta a linguagem teológica já recebida e de preservar o espírito da verdade, contido nas doutrinas antigas. É para isto que S. Tomás constantemente põe vinho novo nos velhos barrís, depois de remendá-los.
O sincretismo teológico, sobre o qual (ou dentro do qual), S. Tomás teve de exercer o trabalho crítico, compunha-se de muitos elementos diferentes. A lógica que utilizou era inteiramente aristotélica. Como o fez para a metafísica, recorreu à interpretação de Avicena, sem os erros evidentes do ponto de vista da fé cristã. Serviu-se também do Liber de Causis, do Fons Vitae, de Gabirol, e de muitas outras fontes secundárias, em que dominava a tradição platônica: tal foi em particular o caso de Boécio. Mas o núcleo desse ecletismo era constituído pelo que ainda sobrevivia da teologia de Santo Agostinho.

Havia boa razão para isso. S. Agostinho era, desde muito, a maior autoridade teológica no mundo cristão latino. O De Trinitate, entre muitos outros escritos, era objeto constante de meditação para todos os teólogos, e os inúmeros fragmentos de S. Agostinho, inseridos por Pedro Lombardo nas “Sentenças”, eram suficientes para assegurar a sobrevivência de sua influência nas escolas do século XIII. A filosofia usada por S. Agostinho, na elaboração da Teologia, fora a de Plotino, ou melhor, uma versão revista da filosofia de Plotino. O pensamento filosófico pessoal de S. Agostinho está para o de Plotino como o pensamento filosófico pessoal de S. Tomás de Aquino está para o de Aristóteles.

O problema de S. Tomás de Aquino era, então, manter aquilo que tinha por verdadeiro, sem destruir posições teológicas fundamentalmente boas, ou pelo menos, comumente ensinadas como verdadeiras durante tantos séculos. Em 1956, passaram-se 682 anos da morte de S. Tomás. Mas quando ele morreu, em 1274, 834 anos já haviam passado desde a morte de S. Agostinho. Não nos é fácil avaliar as dificuldades da tarefa de rever discretamente uma a uma, posições doutrinais que, aos poucos, se tornavam indistinguíveis da verdade revelada, de que davam uma certa explicação.

Uma coisa, ao menos, é certa. Como quer que interpretemos o trabalho de S. Tomás de Aquino, para ele esse trabalho permanecerá sempre o de um professor da verdade cristã. Nascido em 1255, tinha S. Tomás seis anos de idade quando, em 1231, seus pais o colocaram como Oblato no Mosteiro beneditino de Monte Cassino. Daí por diante, Tomás nunca deixou de pertencer a uma ordem religiosa, primeiro como beneditino, depois como dominicano. De certo modo ele nunca deixou de sentir e de comportar-se como beneditino. Sua atitude em face do estudo está dominada por esse fato.

Desde os primórdios do cristianismo debateu-se a questão de saber até que ponto os cristãos, particularmente os padres e muito especialmente os monges, teriam permissão para estudar , ou seriam a isso encorajados. S. Tomás de Aquino nunca teve hesitações a este respeito. Na Summa Theologiae propôs resolutamente a questão, pela fórmula mais desafiadora: de fato, não indagou se os monges poderiam ter permissão para estudar, e sim se poderia instituir-se uma ordem religiosa com o fim de dedicar-se aos estudos (S. Teol., IIa IIae, q. 188, a. 5). E sua resposta é afirmativa. Mas o que é interessante considerar são os argumentos com que fundamenta esta afirmativa.

Alguns deles fundamentaram-se nas necessidades da vida ativa: o pregador tem de aprende alguma coisa, se realmente quer pregar. Outros se apoiam nas necessidades da vida contemplativa. Para limitar-se a este segundo grupo de argumentos, observamos inicialmente que os estudos que S. Tomás tinha em mente são os que ele chama de “studia litterarum”. Parece entender por esta expressão, ante de mais nada, o estudo das letras sagradas, ou seja, o estudo da Sagrada Escritura. Tratando da vida contemplativa, S. Tomás de Aquino fixou-lhe, como objeto principal, perscrutar a verdade divina, porque essa contemplação é o fim de toda vida humana. Em segundo lugar, e como para encaminhar a este elevadíssimo objeto, S. Tomás atribui à vida contemplativa a consideração dos efeitos de Deus, consideração que nos leva, como pelas mãos, ao conhecimento do autor desses efeitos. É óbvio que a inclusão do estudo das criaturas entre os fins legítimos da vida contemplativa, implica o reconhecimento dos estudos científicos e filosóficos como objeto legítimos dos estudos monásticos.

S. Tomás de Aquino nunca se afastou desta posição. Sustentou sempre que eram lícitos aos monges os estudos científicos e filosóficos. Sustentou sempre explicitamente que, uma Ordem Religiosa instituída para dedicar-se ao estudo, podia legitimamente incluir ciência e Filosofia nos seus programas, atendendo apenas a que estes estudos se orientassem para a contemplação de Deus, como seu próprio fim. Foi perfeitamente claro neste ponto: “A própria contemplação dos efeitos divinos pertence, secundariamente, à vida contemplativa, pois que o homem por ela se eleva ao conhecimento de Deus” (S. Teol., IIa IIae, 9. 180, a 4, resp.).

Isto nos basta para entender a natureza dos trabalhos de S. Tomás de Aquino. Nada de misterioso a seu respeito. Freqüêntemente eles recorrem à consideração, ou como diz S. Tomás, à contemplação do mundo das coisas naturais; contudo, neles, ciência, lógica e filosofia nunca servem a outro fim que não seja a mais perfeita contemplação de Deus. A resposta mais simples para a debatida questão de saber se há uma filosofia nos trabalhos de S. Tomás de Aquino, é sim, há; ela, porém, se destina sempre a facilitar nosso conhecimento de Deus.

O fato está fora de discussão. A pergunta seguinte seria: pode um filósofo considerar como filosófico esse estudo da natureza e essa especulação filosófica concebida como um passo para o conhecimento de Deus? A resposta naturalmente é: depende. Depende do filósofo e da idéia que tem da Filosofia. Não creio que esta noção da Filosofia seduzisse John Dewey, ou Carnap, ou, para estender um pouco o sentido da palavra “filósofo”, Bertrand Russel. Mas muitos filósofos, que nada têm de comum com S. Tomás de Aquino, ressentir-se-iam bastante com tal limitação da Filosofia. Os filósofos gregos — para considerar os únicos que S. Tomás de Aquino conheceu — eram de opinião, precisamente, que a suprema ambição de todo verdadeiro filósofo era conhecer a Deus.

Detenho-me um momento, pois este é um ponto que parece escapar à atenção de muitos críticos de S. Tomás de Aquino, alguns deles católicos, que parecem surpreendidos por ver um cristão, teólogo e monge, manifestar interesse tão apaixonado pelos escritos de um pagão como Aristóteles. Mas, exatamente como monge cristão, S. Tomás de Aquino estava impressionado com o fato de, séculos atrás, ter já o pagão Aristóteles buscado o mesmo objetivo que ele próprio indicara como seu. Não hesitaríamos nisto se tivéssemos um pouco mais de imaginação. É bem possível que, para convencer alguns de nossos contemporâneos que S. Tomás de Aquino era verdadeiro filósofo, seria mais fácil apresentá-lo como interessado apenas em filosofia; mas, do seu ponto de vista, o maior de todos os filósofos estivera interessado, principalmente, com o problema de Deus.

Releiamos as surpreendentes declarações de S. Tomás de Aquino sobre este assunto, para ele, o verdadeiro nome da Sabedoria era Jesus Cristo; portanto Cristo é a verdade; ora, que disse o Cristo a esse respeito? Eis a resposta de S. Tomás de Aquino: “Por suas próprias palavras a Sabedoria divina dá testemunho de que asumiu a carne e veio para o mundo para dar testemunho da verdade.” (Jo 18,37). O Filósofo afirma que a Filosofia primeira é a ciência da verdade, não de qualquer verdade, mas daquela que é a origem de toda a verdade, ou seja, aquela que pertence ao primeiro princípio pelo qual todas as coisas existem. A verdade pertinente a tal princípio é a fonte de toda verdade; porque as coisas têm na verdade a mesma ordem que têm no ser.” (C. Gent., I, 1-3).

Longe de imaginar que se deva encontrar alguma oposição entre a finalidade da indagação filosófica e a da indagação teológica, S. Tomás pensa que o objeto último delas é o mesmo. Em C. Gent. I, 4, apresenta o conhecimento de Deus como o “mais alto cimo ao qual a investigação humana pode chegar.” Por outras palavras, há completo acordo entre o ensino do doutor da verdade cristã e o do filósofo, na medida em que, no plano do conhecimento natural, também o filósofo é um teólogo.

Qual, então, a diferença entre eles? S. Tomás formulou a pergunta na mesma Questão da Summa em que sustenta que se pode estabelecer uma Ordem Religiosa para dedicar-se ao estudo. Examinou, aí, a seguinte objeção: “o que professa um monge cristão deve ser diferente do que professam os pagãos. Ora, entre os pagãos há alguns professores de Filosofia. Mesmo hoje alguns seculares se chamam professores de certas ciências. Conseqüentemente, os monges nada têm que ver com o estudo das letras.” Responde S. Tomás de Aquino: ainda quando estudam a mesma matéria, os filósofos e os monges não a estudam com o mesmo fim: “os filósofos costumam ensinar as letras como parte da educação secular. Mas compete principalmente ao monge dedicar-se ao estudo das letras relativas à doutrina que “diz respeito à piedade” (Ep. a Tito I, 1). Quanto aos outros ramos das ciências, seu estudo não convém ao religioso, cuja vida toda deve estar a serviço de Deus, a não ser na medida em que se ordenam à doutrina sagrada.” (S. Teol., IIa IIae, q. 188, a. 5, ad 3).

O próprio S. Tomás de Aquino nos assegura, assim, que todos os seus estudos, todos os seus trabalhos, inclusive os comentários das obras de Aristóteles, diferem dos trabalhos dos “filósofos”, porque, no seu caso, a verdadeira finalidade é o estudo da Sagrada Escritura. Foi fiel à sua vocação religiosa: aut de Deo aut cum Deo — Quando não falava de Deus, falava com Deus.
Com isso chegamos ao limiar do nosso último problema, e, segundo creio, ao início da solução. Quando filosofa, nos trabalhos de Teologia, que faz S. Tomás? é teólogo, ou filósofo? De início devemos dizer que é impossível dar uma resposta aceitável por todos. Tudo depende da definição de Teologia tomada como ponto de partida. Embora haja muitas definições de Teologia (praticamente tantas definições quantos teólogos), um elemento, pelo menos, é comum a todas; a saber: a Teologia considera todos os seus objetos à luz da revelação divina.

As diferenças de interpretação começam quando os teólogos procuram definir as relações existentes, dentro da própria Teologia, entre revelação e razão.

Temos hoje uma noção pobre da Teologia, muito diferente da gloriosa imagem familiar aos leitores de Dante, tão esquecida em nossas escolas. É verdade que o teólogo, como entende S. Tomás de Aquino, vê todas as coisas à luz da revelação divina, mas é grave erro imaginar que, no verdadeiro tomismo, ver uma verdade à luz da revelação divina consista necessariamente em partir de uma verdade revelada, como de uma premissa, para dela inferir alguma conclusão.
Fazer isso é, realmente, teologizar. S. Tomás de Aquino concederia mesmo que a verdade teológica, própria e essencialmente, consiste na verdade que Deus nos revelou e que não poderíamos conhecer por outro modo. Esta é o “revelado”: o revelatum, isto é, aquilo que por essência tem que ser revelado para ser conhecido, pura e simplesmente. Mas em torno deste cerne do conhecimento essencialmente teológico há vasta área de especulação racional que, por cooperar com o trabalho da revelação, está também incluído no trabalho do teólogo.
Além da verdade que não se pode conhecer sem a revelação divina, muitas verdades há que não estão fora do alcance da razão humana, mas foram, não obstante, reveladas por Deus ao homem. Por que? Porque é necessário à salvação do homem que estas verdades sejam conhecidas, e, desde que, por várias razões, nem todos os homens são capazes de descobri-las através da indagação filosófica, Deus revelou-as a todos. Ainda que reveladas a todos, estas verdades são cognoscíveis racionalmente. Toda investigação racional dedicada à investigação daquilo que, muito embora revelado por Deus, é conhecível racionalmente, constitui parte da Teologia, tal como a entende S. Tomás de Aquino.

Um fato basta para prová-lo. A Summa Contra Gentiles é um tratado puramente teológico. Foi às vezes chamada a “Suma filosófica” porque contém de fato grande proporção de especulação puramente racional. Mas o prólogo mostra, de modo claro, que a intenção do autor, ao escrevê-la, foi puramente religiosa. Reconhecemos aí o Dominicano que estamos habituados a ouvir na Summa Theologiae, quando, no capítulo II da Contra Gentiles, S. Tomás faz suas as palavras de S. Hilário: “Estou consciente de que devo a Deus a principal obrigação de minha vida, que minha palavra e minha inteligência possam falar dele.” Além disso, São Tomás diz (C.G. II, 4, 6) que, na Contra Gentiles, ele segue a ordem teológica que procede de Deus para a criatura, e não a ordem filosófica que procede da criatura para Deus. Qual é, na Contra Gentiles, a proporção da especulação destinada às verdades reveladas que são inacessíveis à razão sem o auxílio da Fé? Uma quarta parte do todo. O próprio S. Tomás de Aquino o diz. No Prólogo do Lv. IV. 1, 10, S. Tomás assinala a mudança de atitude, de método e de ordem: “no que precede, as coisas divinas foram objetos de exposição na medida em que a razão natural pode obter conhecimento delas pelas criaturas: imperfeitamente, é claro, e conforme à capacidade de nossa inteligência… Agora resta falar daquilo que foi divinamente revelado para nós como algo que se deve acreditar, pois que excede à razão.” Portanto, na Summa Contra Gentiles, três partes da obra estudam as verdades acessíveis à razão humana; e ainda assim todas as coisas nela são Teologia. Evidentemente, S. Tomás adotou este plano porque desejava mostrar aos pagãos e infiéis, que não acreditavam nas Escrituras, quão longe a razão humana pode ir sozinha a caminho da revelação cristã, mas, proceder assim, é precisamente o que São Tomás de Aquino chama ensinar Teologia. Tudo o que está na Contra Gentiles, inclusive a ordem de exposição, é Teologia. Tudo o que está na Summa Theologiae ( e o próprio nome bastaria para o tornar claro), é Teologia. Numa palavra, tudo o que ensinamos nas Escolas como Filosofia de São Tomás de Aquino, foi primeiro ensinado por ele nos tratados teológicos, como parte da verdade teológica.
Seja portanto isto ponto pacífico: como a Teologia inclui tudo o que se pode conhecer à luz da revelação, inclui o que S. Tomás chamou: “a verdade sobre Deus alcançada pela razão natural”, e que, no entanto, Deus “convenientemente propôs ao homem para crer” (C. G. I, 4, título). Isto não é tudo. Além daquilo que o homem não pode conhecer sem a revelação, e além daquilo que o homem conhece, de modo mais fácil e perfeito se lhe é revelado, há o imenso campo de tudo aquilo que, embora não atualmente revelado, pode ser usado pelos teólogos como meios para estabelecer, de modo racional, a verdade revelada, quando isto é possível, ou, ao menos, para defendê-la contra as objeções dos adversários. Na doutrina de São Tomás de Aquino, tudo o que pode servir ao principal objetivo do teólogo, que é fazer conhecer melhor o sentido da verdade revelada, é, pela mesma razão, Deus que a revelou sob a razão formal da revelação, e, portanto, pode incluir-se na Teologia. S. Tomás de Aquino não fixou limites à extensão possível do campo da especulação teológica. Chama revelabilia, “revelável” todo o material não especificado que, segundo o seu talento, gênio, ou aprendizado pessoal, o teólogo pode pôr a serviço da Teologia.
A Filosofia, incluindo todas as ciências que esta palavra evocava na linguagem de Santo Tomás, pode, portanto, integrar-se na Teologia, sem abdicar de seus métodos próprios ou quebrar a unidade da sabedoria teológica. A serviço da Teologia a Filosofia guarda as suas características, mas serve a um fim mais alto.

Esta noção elevada da Teologia assume sentido total à luz de uma observação feita várias vezes por Santo Tomás de Aquino, à qual ele dá grande relevância, ao passo que nós relegamos como não importante para nossos problemas. “Os objetos que são matérias das diferentes ciências filosóficas podem ser ainda tratados por esta única doutrina sagrada, sob um aspecto, a saber, na medida em que são divinamente reveláveis. Deste modo, a doutrina sagrada traz a marca da ciência divina, que é uma e simples, ainda que se estenda a todas as coisas.” (S. Teol. Ia., q. 1, a. 3, ad 2 um).

Estamos no centro da noção tomista de Teologia, concebida como ciência. Todo o saber humano está, nessa concepção, à disposição do teólogo, que dele se serve em vista do seu fim. Não há limites? Sim, realmente, há limites. Nem todo conhecimento humano é igualmente importante para a interpretação da verdade revelada. Ainda assim, esta restrição se deve antes às limitações do homem do que aos objetos das disciplinas filosóficas ou científicas. Na ciência divina, nada conhecível é sem importância para Deus. Na ciência teológica, nada do que nos pode fazer conhecer melhor a Deus é sem importância. Como diz S. Tomás de Aquino na Contra Gentiles, com energia insuperável: muito embora instrua o homem principalmente sobre Deus, a fé cristão faz também do homem, “através da luz da revelação divina, um conhecedor das criaturas” (per lumen divinae revelationis eum criaturaram cognitorem facit), de tal modo que “nasce, então no homem uma espécie de semelhança com a sabedoria divina” (C. G. II, 2, 5). E, realmente, se a Teologia pudesse conhecer as coisas como Deus as conhece, conheceria todas as coisas sob uma só luz, a luz divina. Não é esse conhecimento acessível ao homem nesta vida, mas, a Teologia, pelo menos, nos dá uma pálida idéia da espécie de conhecimento que é aquela sabedoria, que tudo abrange.

Podemos agora dizer onde se pode normalmente encontrar a maior parte do material que integra a estrutura da Filosofia de São Tomás: quase toda nos trabalhos teológicos escritos por Santo Tomás de Aquino. Poder-se-ia extrair a mesma doutrina do texto dos comentários de São Tomás sobre Aristóteles? Pelo que sabemos, a maior parte certamente não. Então, é ela Filosofia? Teologia? Em resumo, que é?

Do ponto de vista de S. Tomás, era Teologia. Para ele a integração da Filosofia na Teologia de nenhum modo diminui o valor racional da filosofia. Como quer que a chamemos, uma demonstração racional é uma demonstração racional. Havendo reduzido a Teologia ao conhecimento de Deus, que prova suas conclusões pela autoridade das sagradas Escrituras, não pela luz natural da razão, alguns de nossos contemporâneos não podem entender como uma conclusão possa ser ambas as coisas, puramente racional e, ao mesmo tempo, teológica. O problema, em grande parte, é verbal, neste sentido ao menos que a resposta permanece dependente de certa definição de Teologia. Quanto a nós, o que queremos dizer nestas observações, é que a coisa é de todo possível, se levarmos em conta a noção de Teologia elaborada por São Tomás de Aquino.

Adianto logo, porém, que não consigo ver como nossos contemporâneos possam admitir esta doutrina. Para eles, qualquer contato entre Filosofia e Teologia é suficiente para privar a Filosofia da pureza racional. Neste ponto, Descartes ganhou certamente a batalha, tanto que, hoje, ninguém ousaria apresentar-se como professor de Teologia, ensinando, dentre outras, conclusões demonstráveis, como se fossem tão racionalmente válidas quanto as que ensinam os professores de Filosofia. Estes últimos não acreditariam nele, e nem mesmo se acreditaria em si próprio. Presentemente, a separação da Filosofia da Teologia parece fato universalmente aceito. Será, talvez, uma das razões pelas quais em 1879, o Papa Leão XIII, na Encíclica Aeterni Patris, propôs que se chamasse “filosofia cristã” a maneira de filosofia própria dos mestres da Escolástica, admiravelmente exemplificada por Tomás de Aquino.

Seria vã esperança supor que esta sugestão pudesse encontrar apoio universal. Entre as características herdadas do povo judeu pelo povo cristão, podemos incluir a de “povo de dura cerviz”. Seria, porém, bom dar ao povo “palavras” que disputem a respeito? O que realmente conta é que estejam de acordo sobre as “coisas”. E, nisto, uma coisa ao menos é certa: como quer que prefiramos designar esta doutrina, a mais compreensiva expressão da verdade cristã, tanto filosófica como teológica, continua sempre ao nosso alcance nos trabalhos de São Tomás de Aquino.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Gramática e barbárie


A santa ranzinzice dos bons gramáticos serve aos usuários de qualquer idioma como balizadora do que se convencionou chamar de “norma culta”. E muito mais que isso: sem a gramática, como diz o prof. Carlos Nougué — que está finalizando o primeiro volume de suas Lições de Português, a ser apresentado no próximo ano —, a língua tende à entropia, à dissolução, à impermanência. Em certo sentido, a gramática é a pedra angular da cultura de uma nação, na medida em que uniformiza os conceitos mentais implicados no uso virtuoso do idioma, sem o qual não há filosofia, nem direito, nem literatura. Até ao jornalismo, hoje tão facilmente adaptável a novidades, tão fomentador de impropriedades e barbarismos, tão useiro em difundir o mau uso do idioma, faz falta o norte gramatical.

Em poucas palavras, sem o vernáculo, que a gramática busca preservar, não há idioma comum. Lembremos que vernaculum, como ensinava Napoleão Mendes de Almeida, provém do latim verna, vocábulo que aludia ao escravo nascido na casa do senhor — e de “nascido na casa do senhor” passou a palavra a significar “nascido no país” ou “próprio do país”. Defender o vernáculo é, pois, defender a permanância da cultura de um país, a sua propriedade fundamental, a tradição sem a qual um povo perde o seu caráter, perde as marcas que o distinguem no tecido da história.
Se hoje os nossos jovens não conseguem ler sequer uma página de Machado de Assis ou do Padre Antônio Vieira sem quase ter uma concussão cerebral, é porque os gramáticos de alguma maneira naufragaram em sua tarefa. Um exemplo disto nós o podemos dar na recente e absurda “reforma” ortográfica da língua portuguesa, que teve num gramático — Evanildo Bechara — um de seus fomentadores, ainda que ao modo de omissão com relação a mudanças injustificáveis que recusamos aceitar neste modesto espaço na internet, embora no cotidiano de nosso trabalho sejamos obrigados a adotar a intervenção imposta pelo Estado luliano (logo no governo de quem!) nos usos da língua pátria.

Se por trás das políticas de destruição do idioma, no Brasil e noutros países, está o objetivo de debilitar as identidades nacionais com o intuito de preparar o governo global — cujos tentáculos começam a nos alcançar —, não sabemos. Mas sabemos que, neste momento dramático da história humana, é preciso criar em cada país ilhas civilizatórias para preservar o que for possível, e isto passa necessariamente pelo DNA da língua, que é a gramática. Trabalho análogo ao que os monges irlandeses fizeram entre os anos 500 e 800, entesourando a tradição literária e cultural cristã em meio à barbárie crescente.

Sem a gramática, a língua seria um perpétuo e caótico devir, ao modo heraclíteo, seria impermanência pura, como diz o citado Prof. Nougué. A gramática — e não a lingüística — lhe garante a permanência na mudança sem a qual, como dissemos, nenhuma nação possui identidade própria.

Encerramos este breve texto destacando que tudo o que é usado por muitos, ao longo do tempo e em diferentes lugares, tende naturalmente à entropia, se não existe um elemento normatizador — definidor de padrões comuns que, embora aceitem mudanças adventícias e acidentais, preservam o essencial, o quid est.

E este é o papel da gramática como preservadora da civilização. É seu papel de contenção, de dique à barbárie.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Vinicultura, um sinal de civilização

Caros leitores, pela andanças na internet, deparei-me com um video 'documentário' português, sobre a vinicultura na região do Rio Douro, em Portugal.

Trata-se de uma sequência de imagens, onde procurou-se retratar um pouco da vida dos vinicultores da região, vida simples e pacata, mas de uma paz imensurável, e mui rica pelas tradições desta região, sua cultura, e pelas artes que ali se fomentaram.



A poda das parras, os tratos com a terra, as cantigas que as moças entoam no campo, o diapasão presente sinalizando que ali há arte, a taça e o vinho, tudo isso num harmônico panorama, uma paisagem de civilização.

O video foi produzido em homenagem à criação dos Vinhos Quinta dos Murças, pela Esporão. E no site desta vinícola tradicional de Portugal, encontra-se uma boa descrição da região Douro e sua história na vitivinicultura:

"A região vinhateira do Douro insinua-se numa exuberância de montes, vales e cursos de água. Os seus típicos socalcos testemunham a tenacidade de quem, desde tempos imemoriais, se dedicou ao cultivo da vinha. Pois que, se o rio Douro recortou a paisagem, ao homem caberia reconverter as encostas xistosas e íngremes das suas margens. Descobertas arqueológicas e referências documentais provam que já na pré-história, e sobretudo durante a ocupação romana da Península Ibérica, a partir do século III a. C., se praticava a viticultura na região. Mas só bastante mais tarde, no século XVIII, a vitivinicultura do Douro entrou numa fase de expansão, que se traduziu num crescimento acelerado do comércio de vinhos, designadamente para o mercado externo. E é neste contexto socioeconómico que surge a designação vinho do Porto..."

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Pronunciamento do Senador Demóstenes Torres sobre o Enem 2010

Srª Presidente, Srªs e Srs. Senadores,

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) começou em 1998, fazendo o levantamento das unidades de ensino, e, agora, avalia o aluno. No anterior, como nesse, os três acabaram reprovados: a escola, o corpo discente e o Enem. O mais recente, de 2010, trouxe o retrato de que o Brasil abandonou o velho 2º Grau, inclusive depois de rebatizado, fotografou uma moldura que circunda aulas desinteressantes, escolas caindo aos pedaços, professores desmotivados e estudantes reduzidos a preparações para se filiar nos propósitos chavistas. A meta oficial é espetar uma estrelinha vermelha no peito de cada um dos 5,4 milhões que lotarão as salas no próximo mês para o Enem 2011.

Vestibular é um modo falho de aferir saber, e, por isso, aplaude-se e se adota o Enem em universidades sérias. O problema é o conteúdo das provas: abaixo da crítica, acima do tolerável. Elas insistem nos erros do vestibular, com o agravante da padronização nacional; equívoco que aparecia na seleção de uma faculdade ganhou amplitude de continente.

Na escala da gravidade dos desacertos, o pior é a doutrinação, e, logo, vem o generalizar da má gestão. As crianças se submetem à Provinha Brasil, no 2º ano de escolarização, e os adolescentes, à Prova Brasil, do 5º ao 9º ano. Quando o cidadão está entrando na juventude, o Governo o cerca com os salamaleques esquerdistas do Enem. Não importa a faixa etária: nos diferentes exames, existe o trabalho sujo de formar consciências sob mando dos burocratas.

Sr. Presidente, o ideal seria que 100% dos estudantes participassem do Exame, mas as seguidas trapalhadas desmoralizaram o Enem em seu período de maior soerguimento. Pouco mais da metade se inscreve, e, em alguns casos, a omissão é deliberada, para evitar que se balize o quadro negro escondido pelos boletins no azul. Por não ser obrigatório, o Exame esbarra nessa bagunça. A maioria dos ausentes é de escola pública, dificultando o diagnóstico. O Governo tentou mascarar o horror de outra maneira, supervalorizando a redação, que seus terceirizados corrigem de acordo com as ordens emanadas.

O tema da dissertação de 2010 foi “O trabalho na construção da dignidade humana”, com dois textos-base: “O que é trabalho escravo” e “O futuro do trabalho”. Certamente, quanto mais o examinando deitou falação contra o serviço e sobre o tanto de suor derramado para vencer na vida, maior foi a sua nota. Pelas demais provas, é possível deduzir o que o Enem deseja: basta fazer um panfleto contra a exploração da mais-valia. O truque para inflar os dados das escolas públicas reside também em um detalhe: o que o aluno escreve em até oito linhas vale o mesmo que as 180 questões das quatro provas de múltipla escolha.

Um representante dos colégios particulares tirou exemplo do funcionamento do estratagema do Governo: uma escola pública ficou na posição de nº 571 em Matemática e por causa da redação sobre trabalho escravo subiu para 19º lugar nacional. É ótimo que reconheçam a importância da escrita de punho e da elaboração própria, pois isso certifica a capacidade de intelecção. Porém, quem vai decidir isso é alguém do instituto responsável pela prova, contratado pelo Ministério da Educação, que tem total interesse em revelar que o ensino público vai bem.

O tiro saiu pelo lombo de quem mandou dar. Na ressonância magnética realizada pelo Enem, o laudo da educação básica a classifica como péssima, mesmo com a ajudinha sorrateira do Enem. Das 14.247 escolas públicas, 8 amealharam 700 pontos ou mais. Repito: apenas 8 em 14.247 escolas públicas obtiveram da nota 7 para cima. Foi incrível o descaramento das autoridades que comemoraram uma suposta alta na média do Enem de 2009 para 2010, de 501,58 pontos para 511,21 pontos. O máximo seria mil pontos.

Para subir esses meros 2%, apelou-se para uma série de mecanismos, sendo o principal deles o incentivo para que as Instituições de Ensino Superior (IES) colocassem o Enem no lugar do vestibular. Por isso, pululam cursos preparatórios para o Enem. Querem se ver livres do vestibular, repisando os vícios do vestibular. À Prova Brasil e ao Enem, acrescentem-se deslizes colossais, como a propagação de livros pornográficos por bibliotecas dos colégios.

Enfim, é desnecessário ser bom em adição para resolver uma operação simples: a meta maior não é educar, mas é doutrinar; não é convencer o aluno a ler os clássicos, mas a obedecer à cartilha.Nos cursinhos específicos, professores e aprendizes estão pegando o que chamam de “manha do Enem”, com os antigos macetes. Isso é o oposto de aprender ensinamento, serve unicamente para alcançar nota no Enem. Eles ouvem os discursos da bancada oficial no Congresso, acompanham os monólogos da Presidenta Dilma Rousseff e as explicações da aparvalhada equipe. Pronto! Estão diplomados em enrolação.

Os redatores do Exame são militantes que honram a tradição da turma, a ponto de perguntas e respostas terem a mesma linguagem dos jargões do Governo. O engajamento é tamanho, que, como o último Enem foi gestado ainda sob o Governo Lula, se houvesse prova oral, esta seria aplicada por um sujeito com a língua presa.

O inteiro teor dos testes segue igual diapasão. Os estudantes são treinados a responder o que o Governo quer, pois assim é elaborado o gabarito. Vamos conversar sobre tópicos do Enem de 2010, cujos resultados saíram há duas semanas. Além da redação, foram aplicadas provas de linguagens, códigos e suas tecnologias; ciências humanas e suas tecnologias; ciências da natureza e suas tecnologias; e matemática e suas tecnologias.

A tecnologia que falta na rotina das aulas sobra nos nomes complicados atribuídos às áreas do conhecimento. No geral, os testes mostram que o Enem é usado como concurso ideológico para membros da esquerda festiva. As folhas têm as mesmas questões, mas, para complicar a famosa cola, foram divididas em cores. A enfocada aqui é a prova amarela do primeiro dia de avaliação.
A Questão nº 02 clareia a linha de raciocínio do aluno ideal para o Governo. A página é ilustrada com um gráfico referente a 1998, com 53% do território rural brasileiro dividido em terrenos com mais de mil hectares: 30,5%, de 10 a 100 hectares; 15,2%, de 100 a 1.000 hectares; 1,3%, até 10 hectares. Portanto, não foram contabilizadas as glebas distribuídas nos últimos treze anos, principalmente no período Lula, em que a pressa para atender a companheirada do MST e entidades assemelhadas disparou o preço do alqueire.

Com as informações, o avaliador ostenta cinco alternativas nas quais o aluno deve indicar a que possui "característica da estrutura fundiária brasileira". Nenhuma delas faz referência à agropecuária, que permite o saldo positivo da balança comercial, uma das dádivas com que o campo brinda seus algozes do Plano Piloto, da Esplanada à Praça dos Três Poderes. Pelo contrário, os produtores são tachados de forma pejorativa, independentemente de qual parêntese vai granjear o "x" ou o quadrinho a ser marcado no cartão.

A opção "E" faz alusão a um sistema de plantations modernos “uma variação baseada em latifúndios e mão de obra escrava”. O Enem planeja associar alhos com bugalhos, pois a analogia fala por si: não importa o quanto melhorou a vida das pessoas no campo, com tratores de última geração, com GPS, com energia elétrica, pois, se elas laboram em grandes fazendas, elas, automaticamente, entram na lista de remanescentes de escravos ou de escravocratas.

A letra "D" é irônica. A resposta para a indagação "Qual a característica da estrutura fundiária brasileira?" seria "a primazia da agricultura familiar"? Não, os gráficos desenham uma produção de subsistência, sem efeito para superávit. Como desafio à inteligência dos alunos, a questão é ridícula, mas avaliar o desempenho dos estudantes nem sempre é o principal objetivo. O contraste entre o enunciado e a opção poderia despertar aquela revolta tão cara aos movimentos sociais. Tropeçam, ao intentarem um sentimento de indignação do proletariado, que se identificaria com o minifúndio, do chacareiro, do sitiante, do meeiro, um pessoal que transpira junto com a família e não almeja a dó de ninguém, só precisa de estradas boas e financiamento justo.

Quem escolhesse a alternativa "B" apostaria na "existência de poucas terras agricultáveis", o que é um absurdo, dadas a dimensão continental, a fertilidade do solo e a ainda resistente água doce.Os produtores que transformaram o Brasil no celeiro do mundo são tratados como réus, o que não é novidade no Enem.

A hipótese "A", apontada como correta, é o mantra de tipos como o incendiário João Pedro Stédile e o presidiário José Rainha. A resposta certa para a pergunta "Qual a característica da estrutura fundiária brasileira?" é "A concentração de terra nas mãos de poucos". Não é verdade. As características são o avanço na legislação de propriedade e a terra com função social, não importam os metros quadrados. O Governo se abstém de extensão e de pesquisa, mas as empresas do ramo suprem com laboratórios, com técnicos e com experiências.

De um lado, fazendas gigantescas são entregues com critérios questionáveis a quem sabe o que é roça por ter acampado perto de uma. No outro lado, lavouras e carnes estão preenchendo estômagos nos cinco continentes. Depois de fazer muito mal à democracia, de preparar trambiques de norte a sul, de torrar bilhões de reais arrancados dos cofres públicos, o MST está em declínio. Os pequenos lavradores viram que seus líderes não se contentavam em invadir plantação e em roubar dinheiro de convênios - eles estavam invadindo a boa-fé e roubando-lhes o rico dinheirinho destinado à refeição do dia a dia. Rainha está no trono da cadeia por malfeitorias desse jaez. Faltam os outros.

A Questão nº 10 traz em sua raiz a pretensão de demonstrar o caráter devastador do capitalismo. Depois de um trecho do livro Lideranças do Contestado, filosofa que uma série de empreendimentos chegou à região meio-oeste de Santa Catarina, gerando um impacto social que redundou na Guerra do Contestado. Cabe ao estudante apontar qual mazela do livre mercado desaguou no conflito com armas.

Opção A: afirma que "a absorção dos trabalhadores rurais numa serraria resultou em êxodo rural". O ser humano busca o melhor. Se a vida no campo naquela região estava ruim, natural migrar para horizonte com melhores chances de ser feliz.Opção B: "O desemprego gerado pela introdução das novas máquinas, que diminuíam a necessidade de mão de obra". Fechadas as aspas, é a surrada ideologia que pretende restaurar o linotipo, o tear, o martelo e a foice. A tolice de associar maquinaria a corte de vagas é superada pela propaganda do Governo: a tecnologia está nas indústrias e nos campos, e o índice de desemprego é o menor em anos.

Opção C, que o gabarito aponta como correta: diz que o fato gerador da guerra foi a "desorganização econômica tradicional, que sustentava os posseiros e os trabalhadores rurais da região". Os empresários que ali sentaram praça espalharam ferrovia para o progresso entrar nos trilhos. Provocaram impacto na economia local, como é praxe em quaisquer mudanças de paradigmas, mas, a médio e longo prazos, todos ganham - a região, os investidores e os anfitriões. O propósito do Enem é formar uma geração de conformados, alheios a esforço, descrentes no mérito, à espera do Bolsa Família, sem despertar para a inovação, a criatividade, o empreendedorismo.

Opções D e E: uma equipara os investidores a velhos coronéis engalfinhados em disputa de poder, e a outra sugere uma guerra de classe entre operários e patrões, ligados ao capital internacional, o manjado e retrógrado discurso utilizado tantas vezes por sindicalistas. O examinando conclui que ascensão segura é na militância. Estudar é insuficiente, tem de entrar na ONG, na associação, na Oscip, na organização social, no partido aliado.

A Questão nº 12, Sr. Presidente, abriga a maçaroca que vou reproduzir como está: “A Inglaterra pedia lucros e recebia lucros. Tudo se transformava em lucro. As cidades tinham sua sujeira lucrativa, suas favelas lucrativas, sua fumaça lucrativa, sua desordem lucrativa, sua ignorância lucrativa, seu desespero lucrativo. As novas fábricas e os novos altos-fornos eram como as pirâmides, mostrando mais a escravidão do homem do que seu poder”.

Li o enunciado como o aluno o encontrou no Enem. A pergunta abarca a relação entre os avanços tecnológicos durante a Revolução Industrial Inglesa e as características das cidades fabris do início do século XIX. A hipótese A poderia ser considerada correta, não fosse o Enem tão direcionado. Ela diz que “a facilidade em estabelecer relações lucrativas transformava as cidades em espaços privilegiados para a livre iniciativa, característica da nova sociedade capitalista”. Extrair lucro do lixo, das favelas e da ignorância não torna o trabalho menos digno. Pela tese esposada, o professor se beneficia da ignorância, o médico se beneficia da doença, o policial se beneficia do crime, o gari se beneficia do lixo. Não há alternativa confirmando que assim se consegue erudição, cura, segurança e limpeza. E é o que ocorre.

A opção D levanta a proposta de que a grandiosidade dos prédios das fábricas revelou os avanços da engenharia e arquitetura do período, tornando as cidades locais de experimentação estética. O que deveria merecer elogio, no Enem é digno de reprimenda. A ideia é imprimir no aluno que o capitalismo é incompatível com a sensibilidade artística. A alternativa correta, letra E, é o mote do atraso. Vou ler como está na prova: “O alto nível de exploração dos trabalhadores industriais ocasionava o surgimento de aglomerados urbanos marcados por péssimas condições de moradia, saúde e higiene”. Para acertar e exibir boa nota no Enem é vital ratificar a frase, que despeja no desenvolvimento industrial o dolo pelo caos que convive com a prosperidade. E prosperidade à custa de suor, para esses aí dos palácios, é um pecado mortal.

O Enem pisca os dois olhos para o bolivarianismo de Evo Morales e dos hermanos latinos. A cegueira histórica, nada mais, justifica a Questão nº 13, que trata da anexação do Acre, desmerecendo o Tratado de Petrópolis, mas vamos retornar para o agronegócio, que os redatores do Enem consideram o vilão do desenvolvimento brasileiro.

Na Questão nº 14, a introdução fala sobre uma manifestação indígena na Avenida Paulista, em São Paulo. O avaliador lança a afirmativa para o estudante eleger argumento que a corrobore. Vou ler o enunciado: “A questão indígena contemporânea no Brasil evidencia a relação dos usos socioculturais da terra com os atuais problemas socioambientais, caracterizados pelas tensões entre”... Aí vêm os cinco modelos de abadás, em forma de alternativas, para os alunos saírem apitando e jogando espelhinhos nos exterminadores de caiapós, tupis, carajás e tantas outras tribos.

O ardil do Enem, Sr. Presidente, impele o incauto a armar seu protesto em defesa das reservas indígenas, dentro do coitadismo institucionalizado, como se índio criasse teia de aranha no cérebro. A outra maneira de fugir é equipar a caravela e deixar o País com vergonha dos seus antepassados exploradores. Vamos às alternativas indignas dos “protetores” indígenas:

Opção E: afirma que o conflito no Cerrado se dá entre o campo e a cidade, fazendo com que as reservas sofram com “invasões urbanas”. Pelo jeito que descrevem, dão a entender que está acontecendo uma guerra entre indígenas e não índios, com flecha voando para todo lado. Eu moro em Goiás e trabalho durante a semana em Brasília, duas unidades da Federação que compõem o Cerrado. Conheço bem as centenas de localidades e jamais vi no bioma megalópole plantada sobre aldeia, prédios substituindo as ocas e essas outras culpas jogadas sobre todos os brasileiros.

Opções D e C: o vilão é o capitalismo, como virou tradição no Enem. O conflito se dá entre os povos indígenas e a cruel elite industrial paulista.O Enem volta a bater nos produtores rurais, que seriam privilegiados pelo plantio em larga escala do solo em comparação com a brandura destinada ao uso tradicional. Nas entrelinhas, o jeito é deixar a lavoura sob controle dos índios, que eles dão conta de alimentar o Brasil e o mundo. Nem os indígenas saem em público para proferir bobagens assim, a menos que a diretoria da Funai ensaie com eles os termos. Quem acha isso são os que os supõem inválidos, e eles são brasileiros comuns, que sofrem com a demagogia.

Opção B: aponta uma conspiração entre “os grileiros articuladores do agronegócio” para atacar “os povos indígenas pouco articulados”. Não noticia quando foi a última matança de índios por fazendeiros.

Opção A, considerada correta, deixa assim a frase: “A questão indígena contemporânea no Brasil evidencia a relação dos usos socioculturais da terra com os atuais problemas socioambientais, caracterizados pelas tensões entre [...] a expansão territorial do Centro-Oeste e Norte, e as leis de proteção indígena e ambiental”.Não diz um “a” sobre o comércio de madeira, os garimpos, a falta de comida e de remédio.

Os avaliadores entram na Guerra do Paraguai, citando contradições entre dois pesquisadores. O primeiro é Júlio Chiavenato, em um trecho do livro Genocídio Americano: a Guerra do Paraguai. O outro é Francisco Doratioto, na obra Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai. A ideia do Enem é cristalizar no imaginário do jovem que Solano López foi vítima da Inglaterra. Conforme documenta Doratioto, López era um ditador sanguinário, cujos inimigos não eram a Coroa britânica ou a Tríplice Aliança, mas a própria covardia.

A Questão nº 23 foi baseada no poema “Perguntas de um trabalhador que lê”, do alemão Bertolt Brecht, um bom poeta, cuja exclusividade é reivindicada pela galera de boina. Depois de apresentar versos censurando a memória construída sobre determinados acontecimentos marcantes, o Enem pergunta a que se refere a crítica de Brecht.

Opção A: considera históricos os autores de feitos heróicos ou grandiosos, que, por isso, mereceriam ficar na lembrança. No entanto, a obra de Brecht é uma ode aos trabalhadores, não trata de quem merece ou não entrar para a história. Por analogia, a intenção do examinador é o estudantequestionar: por que celebrar Juscelino Kubitschek se milhares de operários o ajudaram a construir Brasília? Não passou pela cabeça da direção do Enem agradecer a ambos, a JK e a quem pôs a mão na massa.

Opção B: fala que a história deveria se preocupar em memorizar o nome dos reis ou dos governantes das civilizações que se desenvolvem ao longo do tempo. É uma maneira de atirar o jovem contra os administradores, prestem eles ou não. Usando a mesma analogia, companheiros, mandemos ao limbo o Monumento a JK e ergamos no chão desocupado uma estátua aos operários anônimos!

Opção C é a correta no gabarito: afirma que “os grandes monumentos históricos foram construídos por trabalhadores, mas sua memória está vinculada aos governantes das sociedades que os construíram”. A interpretação é repleta de ideologia. A prova do Enem parece gritar: “Companheirada, vamos tirar a sigla JK e os nomes Juscelino e Kubitschek das homenagens e substituí-los pela efígie e o nome do Lula”. Ora, os trabalhadores são, todos, importantes, e eles mesmos se sentem gratificados quando se erige algo em memória de seu líder.

E assim seguem as 180 perguntas e 900 possibilidades de respostas. Tratam de política, de homofobia, de Getúlio Vargas e de uma infinidade de assuntos. Em qualquer tema, em qualquer abordagem, o que interessa é inculcar as diretrizes da permanência no poder. Para isso, o jovem tem de desconsiderar tudo o que houve no Brasil da era pré-cabralina até 1º de janeiro de 2003, marco zero da era glacial tropical, um tempo infindável de otimismo e repartição de riquezas. Até o momento, as riquezas foram repartidas somente entre o Governo e os banqueiros, mas não custa continuar sonhando.

Gostaria de voltar a discutir o Enem antes de sua edição 2011, nos próximos dias 22 e 23 de outubro. As provas, é óbvio, já foram elaboradas e impressas. Mas é preciso rogar ao Ministério da Educação que atente para os testes. O Enem deve avaliar o nível de conhecimento, não o de militância. A iniciativa do exame é louvável e não pode ser atrapalhada pelo recrutamento de cabos eleitorais em que se transformaram as políticas públicas de Educação.
Muito obrigado, Sr. Presidente. Muito obrigado pela tolerância.

[Os itálicos são meus.]