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sábado, 5 de janeiro de 2013

Cinema: The Farmer's Wife (1928) e como encontrar a esposa ideal

Excelente e comovedora comédia muda onde se observa uma eficaz e cuidadosa postura em cena, e um ritmo de montagem ajustado que fazem com que este filme não envelheça em absoluto, mesmo após mais de oitenta anos de sua realização. É claro que Hitchcock já sabia o que fazia.

A história é simples: depois de enviuvar e ficar só devido ao casamento de sua única filha, um fazendeiro, ajudado por sua criada, começa uma busca por uma esposa. Seleciona quatro mulheres do lugarejo, uma pior que a outra: uma obesa viúva “independente”; uma feia com ataques de histeria que prefere continuar sendo solteirona; uma obesa infantil e instável; e a vulgar dona de uma taverna. O fazendeiro (James Thomas) é um homem nobre, elegante e bem tido, e mesmo assim é recusado pontualmente por cada uma das quatro candidatas, às quais o fazem passar por ridículo e perder seu próprio respeito. Finalmente, o fazendeiro acaba por descobrir que a única mulher que vale como mulher e esposa é sua criada Minta (Lilian Hall-Davies), a qual lhe dedicava um secreto e doce afeto.

A história em si não parece muito hitchcoquiana, porém já veremos o que ela traz. Está embasada em uma valiosa obra teatral de Eden Phillpotts, porém Hitchcock lhe agregou cenas verdadeiramente humorísticas, mas que ainda não perdem seu afeto (sobretudo se alguém vê o filme sem a inadequada música que os editores de vídeo adicionaram, que é mais própria de um drama obscuro do que de uma brilhante comédia como esta. Assim, sem música podemos apreciar melhor o filme, graças a Deus). As cenas em questão são aquelas onde participam os serventes (papel destacado para Gordon Harker), que acabam por serem tratados da mesma forma que os patrões. Quase todos os personagens são peculiares, e a festa que se nos mostra é verdadeiramente “a festa inesquecível” (referência ao filme ‘La fiesta inolvidable’ com Peter Sellers, de 1968, no Brasil conhecido como “Um convidado bem trapalhão”), um meio pelo qual Hitchcock se compadece em desfazer as aparências que os personagens querem apresentar, falsidade que nosso diretor gostava de derrubar, como também fazia na vida real, com suas famosas piadas. Porém, colocados fora deste quadro de situação, estão Minta, a criada do fazendeiro Sweetland, e o mesmo fazendeiro, que só faz ‘comédia’ involuntariamente quando se põe a cortejar torpemente as mulheres.
Sr. Sweetland e sua criada, Minta
E a propósito delas: “Como são as mulheres hoje em dia?”, pergunta Minta afinal, quando seu patrão regressa desconsolado, logo depois da última e cruel recusa. Pergunta que poderíamos nos fazer com maior razão, hoje. Pergunta que formulada por aquela mulher resulta em uma condenação inapelável ao resto das mulheres que não estiveram à altura das circunstâncias, indignas de serem esposas e, pelos mesmos egoísmos, indignas de serem chamadas mulheres. Recordamos a Santo Agostinho: “As esposas humildes seguem o Cordeiro mais facilmente que as virgens soberbas” (A Santa Virgindade 51, 52).

Minta é a única mulher com autoridade para dizer aquilo, pergunta que provavelmente passou também pela mente e coração atribulados de Sweetland. Claro que Minta disse isto com dor e tristeza, com verdadeira compaixão, essa que nasce do amor. E aqui, no descobrimento por parte do fazendeiro de que essa que sempre esteve ao seu lado, é quem deve ser sua esposa, e nesta mesma cena que lhe descobre, com a merecedora como símbolo deste lugar único de possessão e com as sobre-impressões que existem no pensamento do fazendeiro, neste momento se entende a serena visão do jovem Hitchcock, de quem sua criada então, Mary Condon, em sua casa de campo deu uma visão muito diferente da que levavam as estrelas do cinema: “Uma não desejaria conhecer um cavalheiro mais educado e mais bom católico também. Cada domingo ia à Missa no Seminário de São João em Wonersh, perto de Guildford” (cit. Por Donald Spoto em sua negligente biografia de A. Hitchcock). Uma espécie de fazendeiro, o jovem Hitchcock, que logo teria sua mulher.

Passemos ao tema dos olhares dos personagens. O olhar do fazendeiro se equivocou uma e outra vez. Sweetland esteve olhando e imaginando coisas, no terreno tão movediço e fantasioso do amor. Teve de passar por todo ele, e ao fim desenganar-se para se dar conta de que não havia visto o que buscava, que estava cego. Também devemos dizer que a forma que esta mulher, Minta, nos é revelada, acontece delicadamente através dos detalhes e sem necessidade de destacar o que por nós mesmos podemos ir construindo ao longo do filme. Penetração psicológica e comportamento desta mulher que já sabe o que é ser uma esposa ainda antes de chegar sê-lo. De caráter fiel e firme, serviçal e bondosa, diligente e simples, também bela, sabia administradora da casa e dócil a seu senhor, é verdadeiramente digna de ser chamada “the farmer’s wife”.

Então, ela, Minta, era mostrada como uma exceção ante o ‘mostruário’ feminino que se apresentava ao homem, que por sua própria boca se perguntava: “como são as mulheres hoje em dia?”, não pensemos o que hoje receberíamos como resposta. Tristemente a realidade nos diz sem a necessidade de intermediários. Como muito bem nos diz, ao final do filme: “E se alguém conhece à uma mulher com um coração mais bondoso, uma franqueza mais firme, e um caráter mais nobre, quisera eu conhecê-la.”

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Últimas palavras em público de Alfred Hitchcock

Últimas palavras em público do cineasta católico Alfred Hitchcock, na cerimônia de premiação da AFI em 1979

 
"Agradeço ao embaixador Jay, à rainha Ingrid, ao diretor Stevens e a meus companheiros deste estranho trabalho que é a “fabricação” de filmes. Há muito tempo me dei conta de que o homem não vive só de assassinato. Necessita afeto, aprovação, ânimo e –de vez em quando- boa e abundante comida.

Esta noite, todos vocês me deram três dessas quatro coisas, pois a angustia me estrangulou o apetite.

Me sinto realmente orgulhoso de receber o “Prêmio de Toda uma Vida” da AFI. Ainda mais quando este prêmio vem de meus amigos e colegas de celulóide. Ao final, quando um homem é reconhecido culpado de um assassinato e condenado à morte, sempre é agradável saber que a condenação é obra de um jurado de amigos e vizinhos... ajudados por um advogado incompetente.

Colocaria à prova sua resistência, e a minha, ao recitar os nomes dos milhares de atores, escritores, editores, câmeras, músicos, técnicos... banqueiros, expositores... e uma variedade de outros criminosos que contribuíram em minha vida.

Vou mencionar só quatro pessoas às quais devo o mais profundo carinho, inteligência, e ânimo, além de uma colaboração constante.

A primeira dessas quatro pessoas é a montadora de meus filmes, a segunda, a roteirista, a terceira, a mãe de minha filha Pat, e a quarta é a cozinheira que conseguiu os mais maravilhosos milagres em uma cozinha doméstica. E seus nomes são Alma Reville.

Se a linda Reville não houvesse aceitado, há 53 anos, um contrato para toda a vida –sem opções- como Sra. Alfred Hitchcock, o Sr. Alfred Hitchcock quiçá estaria esta noite neste lugar, mas certamente não em esta mesa, e sim como um dos garçons da sala.
Hitchcock e sua esposa Alma Reville
Compartilho minha recompensa com ela, como fiz com minha vida. Agora, deixa-me compartilhar algumas coisas com os jovens cheios de promessas que ganharam um título como membros da confraria Alfred Hitchcock graças a AFI. Quando tinha apenas 6 anos, fiz algo que meu pai considerou digno de castigo. Não recordo que transgressão era – à idade de 6 anos, seguramente não teve nada a ver com a criada-.

Bem, meu pai me enviou à delegacia de polícia na esquina com um bilhete. O policial em serviço o leu e depois me fechou em uma cela durante 5 minutos, dizendo: “Isto é o que acontece com os meninos maus”. Deste então não duvidei em fazer qualquer coisa para evitar ser arrastado e encarcerado.

A vocês jovens, minha mensagem é a seguinte: “Evitem a prisão!”.

Algum dia, quiçá, um de vocês estará neste lugar recebendo um prêmio AFI. É o que conseguem os meninos bons”.

Alfred Hitchcock