sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A imaginação católica de Tolkien

Por: Jason Boffetti
Tradução: Maria Alice Soares de Castro
Fonte: ACI

Os grandes livros têm muito que temer os filmes de grande bilheteria. E a adaptação cinematográfica de Peter Jackson de O Senhor dos Anéis, poderia não ser a exceção. Os novos fanáticos de Tolkien que ingressam no mundo da Terra Média de Tolkien poderiam não se preocupar em ler sua obra, e o mais triste é que poderiam deixar de conhecer a imaginação católica que a inspirou.

Inclusive entre os fantasiosos devotos que reconhecem Tolkien como o pai do gênero moderno, poucos sabem que Tolkien insistia que O Senhor dos Anéis é “fundamentalmente um trabalho religioso e católico”. Provavelmente, isto seja também uma surpresa para muitos católicos.

Leitores de O Senhor dos Anéis provavelmente não encontrem una “Terra Média Católica” buscando as sutis referências ao Evangelho Cristão símbolos católicos ocultos –Tolkien repudiava este tipo de análise–, mas poderiam encontrar isto ao contemplar as motivações de Tolkien como escritor.

Hobbies de um cavaleiro de Oxford

Para o mundo exterior, Tolkien foi a figura de um obscuro cavaleiro de Oxford: brilhante, jovial, um pouco atarracado, detalhista ao escolher seu vestuário, alternando-o entre camisas e coletes debaixo de seu paletó de lã de Oxford.

Embora não fosse suficientemente bem parecido, os estudantes diziam que mal podiam entender uma palavra dele porque murmurava tudo com seu onipresente cachimbo. De muitos modos, ele representa a figura dos hobbits sobre os quais escreveu, que preferiam a comodidade do lar às grandes aventuras.

Como muitos cavaleiros de Oxford, Tolkien preferia ter uma vida acadêmica tranqüila e um hobby peculiar. Desde sua infância amava inventar línguas e histórias imaginárias para continuá-las. Sua inclinação pela linguagem e o mito atraiu Tolkien a uma carreira acadêmica. Tornou-se professor de literatura inglesa da Universidade de Leeds e posteriormente de Oxford. Ainda como professor em tempo integral, sempre encontrava tempo para trabalhar em suas “línguas de duendes”.

A história da Terra Média surgiu de sua fértil imaginação à medida que ia criando essas línguas fictícias. Ao longo de sua vida, Tolkien escreveu, reescreveu, e aperfeiçoou episódios principais dessa história mas nunca estava completamente satisfeito com eles. As distrações da vida e a magnitude do trabalho o impediam de completar sua visão. Estes escritos dispersos – postumamente publicados por seu filho, Christopher, como “O Silmarillion” – formam a experiência narrativa da Terra Média. Entre os sub-argumentos está a saga do Anel – um anel que outorga a quem o possua o poder de dominar os mais obscuros seres da Terra Média. A história de sua criação e eventual destruição, assenta as bases do que agora são considerados como suas mais grandes obras: O Hobbit e O Senhor dos Anéis.

Quando os dois primeiros volumes de O Senhor dos Anéis foram publicados em 1954, 17 anos depois de O Hobbit, Tolkien tinha sido professor de Oxford durante 30 anos e estava a apenas quatro anos de se aposentar. O renome que havia evitado previamente, atingiu-o como uma tempestade de fogo nos anos 60 quando seus livros foram reconhecidos como obras primas, inspirando um novo gênero literário: ficção fantasiosa. Mas o sucesso e o reconhecimento de seus colegas não foram o estímulo de seu trabalho. O estímulo de seu trabalho foi sempre sua fé católica.

A fé de uma mãe

Humphrey Carpenter, biógrafa autorizada de Tolkien, caracteriza a fé católica de Tolkien como “total”. Seus amigos o conheciam como um católico manifesto que foi tanto apostólico (foi instrumento na conversão de C.S. Lewis ao cristianismo) como piedoso.

Ao longo de sua vida, Tolkien encontrou a Eucaristia como um incomparável consolador durante os assaltos de melancolia e desesperança que de vez em quando sofria. O especial consolo que recebia durante a comunhão foi especialmente importante durante o desorientado período em que o Vaticano II foi implantado pela primeira vez. Freqüentemente acudia à confissão, embora à vezes uma perturbadora auto-reflexão parecesse aproximar-se ao escrúpulo. Quando não conseguia confessar seus pecados se atormentava com uma ansiedade espiritual porque não podia receber a Eucaristia.

Ninguém teve maior influência no desenvolvimento de sua fé e intelecto que sua madre, Mabel. Tolkien afirmou que tudo o que sabia, aprendeu de sua fé católica, e que tudo devia a sua mãe que, segundo Tolkien, “aderiu à sua conversão até sua morte prematura, apesar da dureza da pobreza que dela resultou”.

Mabel literalmente trabalhou até morrer, mantendo sua família, depois que seu esposo morreu na África do Sul, de uma febre reumática, quando Tolkien tinha apenas quatro anos. Educou seus dois filhos sozinha em um subúrbio de Birmingham, Inglaterra. Durante esses difíceis anos, Mabel tomou duas decisões importantes: educar seus filhos na fé católica, e assegurar-se de que tivessem educação suficiente para continuar carreiras universitárias.
O primeiro ponto foi conseguido com a ajuda dos sacerdotes do Oratório de Birmingham. Fundado por John Henry Newman em 1859, o oratório converteu a tradicional cidade presbiteriana de Birmingham em um centro de ressurgimento católico ao final do século XIX na Inglaterra. Mabel havia crescido como unitária e passou vários anos na Igreja Anglicana. Depois de anos buscando a verdade, foi recebida na Igreja Católica junto com seus filhos na Igreja Anne em 1900.

Sem os rendimentos de um pai, o tema da educação de seus filhos era una grande preocupação porque as melhores escolas cobravam uma taxa de matrícula. Além disso, sua decisão de se converter ao catolicismo a afastou da maioria de seus familiares, que lhe retiraram seu apoio financeiro. Por isso, Mabel fez o que qualquer mulher com recursos de uma boa educação de classe média faria: educou seus filhos em casa até que pudessem ser aprovados nos exames de admissão e obter bolsas em um bom colégio privado.

Sob a instrução de Mabel, Tolkien leu quando tinha quatro anos, e aprendia latim, francês e alemão com a idade de sete anos. Entusiasmou-se tanto com os idiomas que por fim foi aceito em uma das melhores escolas particulares de Londres, obtendo uma bolsa. Em 1909 a carreira acadêmica de Tolkien foi assegurada quando ingressou no Colégio Exeter de Oxford.

Infelizmente, Mabel não viveu para ver os frutos de seu trabalho. Em 1904, quando Tolkien tinha apenas doze anos, morreu de diabetes, uma doença que então não tinha tratamento. Antes de sua morte, ela se assegurou de que seus filhos continuaram se educando na fé católica recorrendo a um amigo do oratório, o Padre Francis Morgan, a quem nomeou protetor legal de seus filhos e conseguiu com que seus parentes protestantes se comprometessem a não tentar converter seus filhos.

Somente a fé susteve Tolkien durante a ausência de sua mãe. Até que os dois filhos atingissem a maioridade, o Padre Morgan os proveu economicamente com seus próprios recursos. Esses foram anos de austeridade e fome para os dois irmãos, mas sempre mantiveram um profundo afeto pelo severo mas sensível Padre Morgan. Enquanto estiveram sob seus cuidados, nunca lhes faltou apoio espiritual ou intelectual. Toda manhã os meninos o ajudavam durante a Missa e tomavam o café da manhã com ele no refeitório.

Casado com graça

Tolkien se apaixonou por uma amiga sua, Edith Bratt, quando tinha somente dezesseis anos. O Padre Morgan descobriu seu romance clandestino quando notou que as notas de Tolkien caíram. Edith era três anos mais velha que Tolkien e era protestante, pelo que o Padre Morgan desaprovava o relacionamento; no entanto, oito anos depois presidiria seu casamento.

Devido a suas diferentes educações religiosas, o casamento poderia ter sido uma trágica decepção, mas os Tolkien o converteram em uma ocasião de graça.

Embora Edith tenha aceitado converter-se ao catolicismo como condição para efetuar seu casamento, fê-lo de má vontade. Com o pasar dos anos, seu ressentimento por ter que se confessar cresceu com força, até que finalmente deixou de assistir à Missa e manifestou seu desacordo quando Tolkien levou seus filhos à igreja.

Como suas diferenças religiosas se tornaram irreconciliáveis, os Tolkien aceitaram que Edith voltasse a assistir aos serviços anglicanos. Como resultado, sua hostilidade contra a fé de seus filhos e seu esposo desapareceu. Apesar de suas dificuldades, sua mutua devoção à família manteve seu casamento por 55 anos, e ambos ficaram encantados quando sue primeiro filho, John, tornou-se sacerdote católico.

Eucacatástrofe e mito-poética

De todas os seus relacionamentos, sua amizade com C.S.Lewis foi a mais significativa para seu crescimento intelectual. Estes dois homens poliram seus agudos intelectos durante longas caminhadas no campo inglês. Os frutos de sua longa amizade são impossíveis de medir. Através de uma amistosa conversação, Tolkien descobriu como poderia integrar sua fé católica com sua vocação literária.

Quando Tolkien e Lewis se encontraram pela primeira vez como jovens cavalheiros em Oxford, em 1926, ambos foram atraídos por um amor compartilhado pela mitologia nórdica. Sua amizade foi crescendo e se fortalecendo enquanto liam poesia épica nórdica em um clube chamado “Coalbiter”. Posteriormente, fundaram uma sociedade literária “ad hoc” chamada “Inklings”. Os encontros deste pequeno grupo de amigos inspirariam a ambos: a Lewis para escrever suas “Crônicas de Nárnia”; e a Tolkien para criar o “Hobbit” e “O Senhor dos Anéis”.

No entanto, foram suas longas discussões sobre a relação entre a literatura e a religião que cimentaram a amizade entre Tolkien e Lewis, uma amizade que foi o centro da conversão de Lewis do agnosticismo. Através de uma persistente paciência, Tolkien introduziu Lewis no teísmo filosófico. Sua subseqüente conversão ao cristianismo dependia de um argumento que interpelava de maneira especial a ficcionária mente de Lewis. Este argumento também revela algo muito importante acerca do entendimento de Tolkien sobre sua vocação como artista.

Tolkien observou que era comum, através da história da humanidade, criar mitologias de maneira que transmitam as crenças mais elementares. É razoável assumir – argumentava o escritor – que, se existe um Deus, Ele transmitiria sua revelação em forma de mito, ainda que este mito fosse verdade.

O cristianismo foi o candidato mais possível para encarnar o “mito perfeito”, já que compartilhava todos os elementos comuns das melhores mitologias.

O relato evangélico foi considerado por Tolkien e Lewis como uma “eucacatástrofe”, a mais alegre de todas as tragédias, já que satisfazia os anelos mais profundos do coração humano, incluindo o desejo de uma mitologia épica. Mas este mito tinha a vantagem de ser um fato histórico interpretado através do texto literário e a tradição poética.

Este discernimento desenvolvido por Tolkien e Lewis em toda sua literatura filosófica e mitológica os inspirou a criar novas mitologias para nosso tempo. Eles passariam o resto de suas vidas argüindo separadamente sobre como o entendimento de um mito, uma religião e literatura poderia ser aplicada à arte de escrever.

Para estes dois frustrados poetas, que ganhavam a vida como cavalheiros de Oxford, existia uma óbvia conseqüência de sua teoria sobre a mito-poética: eles tinham que começar a escrever ficção popular. Se Deus usava narrativa para comunicar sua revelação ao homem, e o homem é chamado a ser imagem de Deus na terra, então a mais nobre vocação do homem é criar novos “mundos secundários” na narrativa.

A mitologia para a Inglaterra

Embora “O Senhor dos Anéis” e as “Crônicas de Nárnia” representem o florescimento de um acordo sobre a mito-poética, Tolkien e Lewis discordavam nos propósitos religiosos que utilizaram para criar Nárnia e a Terra Média.

Lewis, o anglicano evangélico, esperava que suas histórias atraíssem seus leitores à verdade do Evangelho. Como resultado, “As Crônicas de Nárnia”, foram erguidas com um óbvio simbolismo cristão, alegorias e evidentes instruções sobre a moral e a religião. Em suma, Lewis quis que seus escritos fossem evangelizadores.

Para o católico Tolkien, no entanto, era mais importante que a Terra Média fosse uma “sub-criação” de sucesso. Utilizando sua vasta literatura, lingüística e talentos históricos, Tolkien concebeu e criou a Terra Média como um ato de divina glorificação.

Quanto mais convincente e real resultava a Terra Média, mais pura era sua aproximação ao próprio ato da criação de Deus.

Diferentemente de Lewis, Tolkien foi muito mais resistente para criar seu mundo ficctício sob qualquer tipo de desígnio pedagógico. Ele acreditava que no momento em que seus leitores fossem conscientes das muitas conexões entre nosso mundo e “os mundos secundários” da ficção, o feitiço literário se romperia. Tolkien quis que seus leitores cressem de verdade na Terra Média e não a concebessem como um mero instrumento de evangelização.

Poucos leitores de “O Senhor dos Anéis” sabem que Tolkien esperava que a Terra Média se convertesse na mitologia nativa da Inglaterra. Pensava que a lenda do Rei Artur era muito fraca comparada com a épica de Homero e a lenda de Norse. A Terra Média, com sua inspiração heróica e advertências sobre o perigo de ter o poder, foi criada para preservar um legado único cultural inglês dos terríveis e contagiosos erros da modernidade.

Com isto em mente, podemos entender por que a Terra Média parece abraçar a magia e um suave paganismo. O marco histórico da imaginação de Tolkien foi a antiga Inglaterra pré-cristã – as lendas anglo-saxônicas e nórdicas com suas histórias de coragem heróica e misticismo pagão. Tolkien se propôs a estabelecer a Terra Média antes da vinda do cristianismo, já que temia que caísse em una espécie de alegoria enervada.

Forjando a geologia moral

Em que pese sua aversão em mostrar publicamente a religiosidade em suas histórias, Tolkien sempre afirmou que seu trabalho ensina a boa moral e anima seus leitores a voltar à fé católica. O autor simplesmente resistiu a admitir que este deveria ser o propósito principal de um fazedor de mitos; pelo contrário, Tolkien insistiu que todo o sucesso da “sub-criação” necessariamente conduz à verdade moral, porque as únicas boas histórias são aquelas que refletem exatamente o mundo metafísico em que vivemos e as opções morais que enfrentamos.

Então, embora Tolkien não tenha tentado pregar a teologia moral católica, a arquitetura moral da Terra Média é explicitamente católica. A assombrosa consistência teológica de seu pensamento se evidencia lendo-se aleatoriamente qualquer uma de suas cartas publicadas. Ali, Tolkien admite que criando a Terra Média cuidadosamente construiu um mundo com o mesmo perfil moral de nosso mundo, um mundo criado por Deus com a mesma natureza de nosso Criador.

Por exemplo, Tolkien evitou ilustrar a luta entre os habitantes livres da Terra Média e as criaturas do vilão Sauron como uma estrita batalha entre “o bem e o mal”. A aproximação de Tolkien é sobretudo agostiniana: os personagens da Terra Média se distinguem, antes de tudo, pelo que amam, não por onde vivem. Nas cidades-fortalezas dos habitantes livres, Minas Tirith e Edoras, encontra-se tanto o homem como o corrupto. Cada um dos personagens pode ser arruinado pela vaidade; mas até o mais débil tem a capacidade de redenção.

Tolkien descreve esta tensão mais explicitamente no personagem de Gollum, um obsequioso e malévolo buscador do Um Anel, que vacila constantemente entre possuir o anel e sua lealdade aos hobbits. Tolkien cuidadosamente retrata Gollum como um traidor assassino e como uma vítima de sua própria vontade selvagem. Inclusive Sauron, o Satanás da Terra Média, foi certo tempo um poderoso anjo guardião antes de ser corrompido por seus desejos de maldade.

Os heróis de Tolkien tiveram suas falhas também, e somos testemunha de seus desafios morais. O mago Gandalf e Boromir, o filho mais velho de de Denethor de Gondor, são tentados pela promessa de glória através do poder do Anel. E os hobbits devem lutar contra seu próprio desejo de abandonar o sofrimento e retornar à comodidade de seu lar, o Condado, em lugar de continuar com sua missão de levar o anel para sua destruição à Montanha da Perdição.

Seguindo os ensinamentos da Summa Contra Gentiles, de São Tomás de Aquino, Tolkien nunca caiu na armadilha de descrever um personagem ou objeto como algo inerentemente bom ou mau. O mal, além de tudo, é a ausência do bem, pelo que não pode ser atribuído a uma pessoa ou coisa.

Até o Um Anel, forjado pelo poder mágico de Sauron, nunca é caracterizado como o mal em si mesmo. Pelo contrário, o poder de liderar aos fantasmas do anel e a invisibilidade que confere são considerados como tentações que fazem do anel algo muito perigoso para quem o use. Os hobbits resistem a esta forte tentação de pecado mortal que representa, somente porque parecem carecer da capacidade para a vanglória, mas por fim são afetados, física e espiritualmente, pelos pecados veniais que este inspira.

Ao longo das novelas, a ética e metafísica da Terra Média são consistentes com o mundo moral que se conhece: corrupção da vontade, no poder mágico ou destino, enquanto no coração se subjugam os maus atos. Objetos mágicos, como a tecnologia em nossos tempos, são bons se usados para bons propósitos.

Mas a aparência da moralidade católica faz com que a Terra Média seja católica ou moralista? Para a distinção dos componentes católicos, devemos nos aprofundar ainda mais nos mundos criados por Tolkien.

“Acidentes” católicos

Tolkien recusou as tentativas de se encontrar um simbolismo católico em seu trabalho, já que detestava as “alegorias em todas as manifestações”. Na verdade, Tolkien freqüentemente repreendia Lewis por tentar disfarçar Cristo com o traje de Leão de Aslan em “O leão, a feiticeira e o guarda-roupa”. Para Tolkien, se o leitor observasse tal correspondência, perderia o foco na Terra Média, que devia ser vista como um lugar real e não como alguma massa de escombros históricos e religiosos.


Tolkien ainda reconhecia que sua inconsciente sensibilidade católica inspirava os personagens e objetos em seu mundo imaginário. Em uma carta fechada, em 1952, ao Padre Robert Murray (neto do fundador do Dicionário Inglês de Oxford e amigo da família) admitiu de boa vontade que a Virgem Maria forja as bases para todas as suas “pequenas percepções de beleza tanto em majestade e simplicidade”. Não é surpreendente, admite o autor, que o personagem de Galadriel –dotada com radiante beleza, impecável virtude e poderes curativos- ressoa como personagem da Virgem Maria.

No entanto, Tolkien não pode negar que a Eucaristia aparece em “O Senhor dos Anéis” como o “pão de viagem” (lembas), dado pelos elfos aos hobbits para comer durante sua viagem. Os “lembas” reforaçam a vontade dos hobbits e lhes provê o sustento físico necessário para atravessar as terras escuras em sua viagem à Montanha da Perdição. Como ensina a Igreja, enquanto a Eucaristia parece e tem sabor de pão e vinho, nossas sensações abrigam um profundo mistério: a Eucaristia é verdadeiramente o corpo e o sangue de Cristo. Então, em “O Senhor dos Anéis”, a Virgem Maria e a Eucaristia aparecem ocultas nos misteriosos elementos da Terra Média. A melhor maneira de entender isto é ver estes exemplos do simbolismo católico como “acidentes literários”. Deixá-los de lado poderia diminuir a validade da história, já que eles são parte do esforço de Tolkien para fazer com que seu mundo seja completo, verdadeiro para todos os tempos e lugares.

Como autor, Tolkien acreditava que suas histórias fazem, de uma forma limitada e literária, o que o sacerdote realiza no momento da consagração: apresentam-nos Cristo e a história da criação e redenção através de elementos comuns do mundo –neste caso a Terra Média, que se enfrenta com a Verdade de todas as Verdades.

Árvore celestial

Talvez nenhum trabalho individual destaca com tanta luz as intenções artísticas de Tolkien como sua curta história “Folha de Niggle”, considerada como a mais completa autobiografia de Tolkien, e ainda nos oferece uma janela para sua própria alma. Niggle é um homem de cinqüenta anos que, em seu tempo livre, pintava o quadro de uma árvore. O que começou como una insignificante pintura de uma folha, converteu-se depois na pintura de uma árvore, e depois em um belo campo, ocupando um enorme lenço. O temor de Niggle era não concluir seu quadro antes de empreender uma longa viagem da qual não regressaria. No entanto, distrações diversas e obrigações com a família, amigos e vizinhos deixaram-lhe pouco tempo para pintar. Niggle começa a viagem com seu quadro não terminado. Antes que o trem o levasse a seu destino final, ele se deteve em um tipo de estação purgativa e não pode continuar com sua viagem até que “duas vozes” fizeram um juízo sobre sua vida. Ao final, eles permitem que Niggle continue –não porque pintou uma bela árvore (como Niggle esperava) mas porque se entregou ao máximo para atender ao vizinho que mais o distraía: Parish (em quem se vê C.S. Lewis).

O trem de Niggle finalmente o leva até uma terra encantada. No centro encontra uma árvore, a mesma árvore que ele estava pintando em seu estúdio. Mas a árvore e o cenário ao redor estavam incompletos, e Niggle se permite estar aí até terminar de pinta-lo. Uma vez concluído, Niggle se prepara para explorar a terra que havia criado.

A história nos oferece o essencial do catolicismo: os atos corporais de misericórdia, por menores que sejam, refletem nossa vocação tanto como nossas vidas profissionais quando colocadas ao serviço de Deus. Mas Tolkien nos diz algo mais importante acerca de nossas aspirações celestiais: nossas vocações são parte essencial de nossa identidade. Através delas, continuamos servindo e glorificando a Deus por toda a eternidade.

Todos os leitores católicos de O Senhor dos Anéis compartilham una aspiração celestial: algum dia esperam viajar, como Tolkien fez, através dos reinos da Terra Média. Encontraremos, então, Tolkien em seu buraco de hobbit; ele, provavelmente, deveria ter estado ocupado em nossa ausência. Nós nos sentaremos junto dele, bebendo um chá ou fumando um excelente tabaco, enquanto o escutamos contar as histórias da Terra Média que nunca teve tempo de terminar.