sábado, 25 de maio de 2013

Poscia che tutte...


Poscia che tutte cose termin hanno 
zerchiamo un ben che mai non verrà meno: 
che questo nostro fragile terreno 
è brieve infermo faticoso e vano. 

Lissù non pianto non duol non affanno 
ma di alegrezza sempiterna pieno 
ivi non è nascosto alcun veneno 
che cun falsa dolcezza porti danno. 

Lisù non tema non odio o hamore 
non sperar falso, ma scienza vera 
e buon voler e carità infinita. 

O felice cholui che alza il suo chore 
per tempo al ciel e n' aspetta la sera 
di questa morte che si chiama vita.

Sto. Tomás de Aquino

quarta-feira, 22 de maio de 2013

A realidade do mal


Recentemente, um amigo muito próximo me liga e pergunta atônito: - Viu o noticiário? Uma mãe matou a facadas o próprio filho; tinha apenas 6 anos! Respondi negativamente e novamente fui interpelado: - Que perversidade! De onde emana tanta crueldade?
Por fim, disse – meu amigo – ainda, que a mãe ao ser questionada por uma jornalista acerca da motivação de ato tão atroz, respondeu candidamente e, ao que aparentava, sem rancor: “Não sei!”.

Perplexo com a noticia e com a aflição do amigo, após desligar o telefone fiquei por instantes refletindo acerca de sua ultima indagação: de onde emana tanta crueldade?
Correndo os olhos sobre um pequeno acervo de recortes que disponho, me deparo com uma nota dolorida, no entanto, tristemente veraz, de um pai que teve seu filho de apenas 20 anos assassinado em uma tentativa de assalto na cidade de São Paulo: “As autoridades e parte da população estão aceitando com naturalidade os assassinatos, a violência nas ruas e a ação dos criminosos” (Jornal da Tarde, edição de 30 de setembro de 1999).

Em seguida, perfilando as páginas do robusto, porém desgraçadamente desconhecido, livro “Crime e castigo: reflexões politicamente incorretas” de autoria do ilustre desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, Ricardo Henry MARQUES DIP e do então Juiz do Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo Volney Corrêa Leite de MORAES JR. (já falecido), encontro uma página em que este último reproduz um inventário de crimes bárbaros, uma galeria de horrores, como denomina o autor, em que a realidade do mal avulta. Cito dois exemplos:

“Um rapaz de 18 anos assassinou um cobrador de ônibus com quatro tiros à queima-roupa no rosto a fim de roubar-lhe o boné. Segundo a divisão de homicídios, o jovem confessou o crime e disse que achara o boné bonito” (Folha de São Paulo, edição de 08 de março de 1997).

“Assaltantes estupram e matam secretária no Rio. Márcia Castro Lira foi morta na frente da filha de 13 anos, também esfaqueada. As duas foram esfaqueadas no pescoço por quatro assaltantes que invadiram sua casa e fugiram” (Jornal da Tarde, edição de 28 de abril de 2001).

Sugiro a leitura do livro especialmente aos penalistas modernos e aos juristas de salão, tão afeitos à arenga laxista, ao malfadado garantismo penal e a ideologia esdrúxula dos famigerados Direitos humanos tal como é concebido segundo os estreitos limites do jusnaturalismo racionalista decorrente do iluminismo, destoante, portanto, do jusnaturalismo clássico como acentuam, entre outros, Michel VILLEY, Juan Vallet de GOYTISOLO, Miguel AYUSO, Danilo CASTELLANO, Juan Fernando SEGOVIA, Ricardo Henry MARQUES DIP e José Pedro GALVÃO DE SOUSA.


Até aqui pende de resposta a indagação formulada por meu amigo: De onde emana tanta crueldade? Uma possível resposta, embora simplista em um primeiro momento, é que o mal existe – contrariando a tese do homem bom por natureza de Rousseau e do famigerado humanismo do bem congênito derivado da mesma tese e que serviu de espeque aos denominados “direitos humanos” -. O mal existe, é uma realidade, como se depreende de um comentário de autoria do escritor argentino Abelardo PITHOD, doutor em Sociologia e Psicologia Social. O comentário se refere aos acontecimentos ocorridos em Coronel Suárez, província de Buenos Aires, onde uma jovem foi seqüestrada, violada repetidas vezes e submetida a torturas e vexames por uma dupla de delinqüentes, o que evidencia até a repugnância que o mal existe e parece não conhecer limites.

Conforme relata o Dr. Abelardo PITHOD, a Bíblia explica o fratricídio de Cain contra Abel, dizendo que o assassino – no caso em questão - fez o que fez “porque era mal”. Os exemplos poderiam se multiplicar para mostrar que o mal existe e que o episódio de Coronel Suárez não se explica de outro modo senão pela realidade do mal. Dois sujeitos, um homem e uma mulher, mantêm uma jovem seqüestrada, torturada, obrigando-a a comer dejetos humanos e animais, até que ela consegue escapar, em um estado de lamentável desnutrição e depressão.

O que motivava estes monstros senão sua paixão pelo mal? O jornalista Jorge LANATA, referindo-se aos fatos de Coronel Suárez, fala de um estado de “possessão”, de gente possuída pelo mal. - “O que é isto senão o inferno?”, se pergunta.
Semelhante a nota emitida pelo pai que teve seu filho seu assassinado a que fizemos menção acima, assevera o sociólogo que há uma espécie de indiferença social em relação ao mal. Mas se o caso de Coronel Suárez e os já referidos não é maldade, como explicá-los?

O mal em suas distintas formas acompanha a história humana. Refletindo sobre este fenômeno – é o que diz o pensador argentino - verifica-se também que embora não possamos erradicá-lo, não podemos dizer que haja mais mal do que bem no mundo. É impossível fazer uma avaliação justa de cada momento e circunstancia, mas não é razoável ser sistematicamente pessimistas, como tampouco sistematicamente otimistas.

Nossa certeza – é ainda a tese de PITHOD - sobre a existência do mal se afasta de ambas as posições, pois, assenta-se na evidencia empírica, experimental, de que o mal existe, como podemos tatear pelos fatos de Coronel Suarez e por tantas outras experiências análogas, como as descritas nos parágrafos iniciais.

Sem embargo, finaliza o ilustre sociólogo argentino, ainda que as notícias dos meios de comunicação não nos deixam olvidar que o mal existe, preferimos ignorá-lo. É um mecanismo de defesa compreensível, mas péssimo conselheiro. Reconhecer que o mal é uma realidade que é preciso enfrentar para não ser vitima de seus enganos é a posição que, ainda que custe - e custa - deve ser um principio irrenunciável da ética educativa.
Frente ao mal não há outra opção senão reconhecê-lo, nomeá-lo por seu nome e combatê-lo.

O mal existe, é uma realidade. Uma realidade que talvez explique o brutal assassinato do jovem Carlos Alberto SACHERI, professor de Filosofia social da Universidade Católica Argentina, compatriota e amigo do mesmo Dr. Abelardo PITHOD, em 22 de dezembro de 1974, publicada nestes termos pelo jornal espanhol ABC:

“Às 10h30min, aproximadamente, após ouvir missa na Catedral da cidade de Santo Isidoro, próxima de Buenos Aires, onde tinha seu domicílio, voltava a este em sua camioneta ‘Ford’, o doutor Sacheri acompanhado de sua esposa, seus sete filhos e mais três crianças, quando no instante em que diminuiu a marcha, para entrar pelo portão de sua garagem, se aproximou um individuo até a janela da camioneta, junto ao volante, sacou uma pistola e colocando o cano junto à orelha de Sacheri fez dois disparos ocasionando-lhe a morte no ato”.

O ódio, o ódio de uma guerrilha marxista ceifou a vida do professor SACHERI, aos 41 anos de idade. O motivo: sua confissão e defesa da fé católica. Como disse o jurista Bernardino MONTEJANO, nos vinte e cinco anos da morte do insigne professor, “os assassinos não conhecem a piedade. Suas ideologias perversas multiplicaram os órfãos, semearam a dor. Sabiam a quem matavam, sabiam as feridas que abriam entre seus familiares e seus amigos, feridas das que conservamos as cicatrizes”.

Tal foi o destino de outros próceres do pensamento católico tradicional da vizinha Argentina, vítimas da escalada terrorista, como Jordán Bruno GENTA e Ermesto Carlos PIANTONI, este último assassinado em Mar del Plata no dia em que nasceu seu terceiro filho: "¡Pobre mi hijito!" foram suas últimas palavras.
Ressalta-se que SACHERI, GENTA e Carlos PIANTONI se encontram unidos em seu último testemunho e em suas razões: confrontaram o risco, o sacrifício, a morte violenta, por amor. Vale para eles as palavras de Antoine SAINT-EXUPÉRY, lembrada por MONTEJANO: “não sei viver fora do amor; não falei, nem agi, nem escrevi mais que por amor”.

Não sei se estas considerações irão satisfazer a contento o meu amigo angustiado, contudo, reputo que não foram despropositadas. O que jamais podemos olvidar como o demonstra a fina inteligência do falecido publicista francês Marcel de la Bigne de VILLENEUVE – tão bem estudado entre nós pelo filósofo Heraldo BARBUY e pelo jurista José Pedro GALVÃO DE SOUSA - em sua esclarecedora obra Satan dans la Cité é que: “O mal nos rodeia e nos solicita por todas as partes, abertamente ou por desvios mais ou menos dissimulados. Não nos dá trégua”. Em outra oportunidade daremos seguimento ao assunto.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Depois da guerra...


Uma das raparigas espreguiça-se e senta-se, com os cabelos ao vento, em cima da barricada. É uma rapariga um pouco pesada, mas é louçã e bonita. Sorri para nós, radiante:
- Depois da guerra, fico nesta aldeia... Uma pessoa é muito mais feliz no campo do que na cidade... Não sabia!
E olha à volta dela, cheia de amor, como que tocada por uma revelação. A única coisa que ela conhecia eram os arrebaldes cinzentos, as idas matinais para a fábrica e a recompensa dos cafés tristes. Todos os gestos que fazem à volta dela parecem gestos de festa. Lá vai ela a saltitar, a correr para a fonte. Sem dúvida tem a impressão de que bebe mesmo no seio da terra.


Antoine de Saint-Exupèry
Um sentido para a vida

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Da tarde morta o murmurar se cala...


A alma, como incenso, ao céu se eleva
Da férvida oração nas asas puras,
E Deus recebe como um longo hosana
O cântico de amor das criaturas.

Do trono d'ouro que circundam anjos
Sorrindo ao mundo a Virgem-Mãe se inclina,
Ouvindo as vozes de inocência bela
Dos lábios virginais de uma menina.

Da tarde morta o murmurar se cala
Ante a prece infantil que sobe e voa
Fresca e serena qual perfume doce
Das frescas rosas de gentil coroa.

As doces falas de tua alma santa
Valem mais do que eu valho, ó querubim!
Quando rezares por teu mano, à noite,
Não te esqueças: também reza por mim.

Casimiro de Abreu

sábado, 13 de abril de 2013

O respeito e cavalheirismo do Sonhador em Noites Brancas




Eis como as coisas se passaram:
 
Regressei muito tarde à cidade e já tinham dado as dez horas quando me aproximei da minha casa. O caminho que percorri passava junto do cais do canal, onde, àquela hora, não se encontrava vivalma. Na realidade, moro num bairro bastante afastado. Caminhava cantando, pois quando estou contente gosto de cantarolar, como qualquer homem feliz que não tenha amigos, nem conhecidos, e que nos seus momentos de felicida­de não tem com quem Compartilhar a sua alegria. Subitamente, aconteceu-me a mais inesperada das aventuras.
 Num recanto, apoiada ao parapeito da muralha, estava uma mulher. Com os cotovelos apoiados no gradeamento, parecia olhar com muita atenção a água turva do canal. Trazia um bonito chapelinho amarelo e uma encantadora mantilha negra. «É uma rapariga e certamente morena», pensei. Parecia não ouvir os meus passos e nem sequer se moveu quando passei por ela, retendo a respiração e com o coração a bater violentamente. «Estranho!», pensei «Deve ter, sem dúvida, uma grande preo­cupação»; e bruscamente detive-me, como que pregado ao solo. Sim, não me enganara: a jovem chorava. Um momento depois, ouvi um novo soluço. Santo Deus! O meu coração comprimiu-se de angústia. Embora habitualmente seja tímido com as mulheres, a verdade é que este caso era excepcional!... Voltei atrás, uns passos na sua direção e teria forçosamente dito:
 «Menina!», se não tivesse a consciência de que esta exclamação fora pronunciada já mil vezes em todos os romances mundanos. Foi a única coisa que me deteve. Porém, enquanto procurava uma palavra, a jovem recompôs-se e, dominando-se, passeou um olhar em torno de si, baixou a cabeça e deslizou à minha frente ao longo do canal. Imediatamente, caminhei em sua perseguição, mas ela, descobrindo-o, deixou o cais, atravessou a rua e foi para o passeio do outro lado. Não ousei atravessar, O meu coração palpitava como o de um pássaro apanhado numa armadilha. De súbito, uma casualidade veio em meu auxílio.
 No passeio para que a rapariga atravessara surgiu subitamente, perto dela, um cavalheiro de fraque, com uma idade muito respeitável, mas com um ar que não o era tanto. Cambaleava, apoiando-se cautelosamente nas muralhas. A rapariga caminha­va apressada e timidamente, como sucede geralmente com as raparigas que não querem que se lhes ofereça para as acompa­nhar à noite até suas casas, e, por certo, o oscilante cavalheiro nunca a teria conseguido apanhar se a minha boa estrela o não tivesse induzido a recorrer a meios de circunstância. De repen­te, sem dizer palavra, o sujeito encheu-se de coragem e, com todas as suas forças, desatou a correr em perseguição da minha desconhecida. Ela fugia, célere como o vento, mas o senhor, embora cambaleando, ia ganhando terreno, até que a atingiu. Ela soltou um grito a eu:.. dei graças aos Céus pela excelente e nodosa bengala que trazia na mão direita. Num abrir e fechar de olhos, eis-me do outro lado da rua, e, também num abrir e fechar de olhos, o intruso deteve-se, tomou em consideração o meu pesado argumento, calou-se, ficou para trás, e apenas ‘quando íamos já muito longe me apostrofou em termos assaz enérgicos. As suas palavras, porém, perderam-se na distância.
 — Dê-me o braço — disse à desconhecida —, pois assim ele não ousará voltar a abordá-la.
 Silenciosa, estendeu-me o braço ainda trêmulo de emoção e de susto. Oh, intruso, como te abençoei naquele momento! Olhei-a furtivamente: conforme calculara, era muito bela e morena; sob as suas pestanas negras brilhavam ainda pequenas lágrimas, lágrimas provocadas pelo susto recente ou pelo des­gosto que a fizera chorar junto da muralha, não sabia. Nos seus lábios, contudo, resplandecia já um sorriso. Olhou-me também de soslaio, enrubesceu levemente e baixou os olhos.
 — Está a ver, Se não me tivesse repelido, nada disto acontecido...
— Mas eu não o conhecia. Julguei que o senhor também...
— E agora, já me conhece? ­
— Um pouco. Olhe, por exemplo, porque treme?
— Oh! Adivinhou logo! — respondi, entusiasmado com o fato de aquela jovem ser inteligente: a inteligência só favorece beleza. — Sim, logo à primeira vista adivinhou quem eu era. Com efeito, sou tímido com as mulheres, não nego que estou emocionado, pelo menos tanto como a menina o estava há momentos, quando aquele sujeito a assustou... Sinto uma espécie de medo, nesta altura. Dir-se-ia que vivo num sonho, mas mesmo em sonhos nunca acreditei que poderia um dia falar com uma mulher, fosse ela quem fosse...
— O quê? Será possível?...
— Sim, a minha mão treme, pois nunca nela se apoiou uma tão linda mãozinha... Perdi completamente o hábito de lidar com mulheres; isto é, nunca tive esse hábito... Bem vê, vivo só. Nem sei como se lhes deve falar. Olhe, ainda agora, consigo, não sei se já lhe disse alguma tolice. Se assim aconteceu, diga-­mo francamente, pois aviso-a de que não sou susceptível...
— Não, não disse qualquer tolice, antes pelo contrário. E se na verdade quer que lhe seja sincera, pois bem, dir-lhe-ei que mulheres apreciam essa timidez. E se ainda quer que vá mais longe, digo-lhe que não fujo à regra e que não o despedirei até me ter acompanhado a casa.
— Dada a maneira como me está a tratar — comecei, anelante de entusiasmo —, deixarei agora mesmo de ser tímido e, então, adeus todas as minhas vantagens!...
— As suas vantagens? Mas quais vantagens? Isso é que já não está bem.
— Perdão, não insistirei. A palavra escapou-se-me. Mas como quer que num momento como este não tenha o desejo de...
— De agradar, talvez?
— É isso mesmo! Mas, por amor de Deus, seja benévola! Tente compreender-me. Tenho já vinte a seis anos, bem vê, e nunca me relacionei com ninguém. Assim, como quer que fale como deve ser, com à-vontade e oportunamente? Será melhor para ambos se falarmos com sinceridade... Quando o meu coração fala, a minha boca não se sabe calar. Bem, mas é a mesma coisa... Poderá acreditar-me? Nem uma mulher, nunca, nunca! Nem sequer um amigo! Apesar disso, todos os dias sonho que, finalmente, tarde ou cedo, encontrarei alguém. Ah, se soubesse quantas vezes me apaixonei desta maneira!
— Mas como? Por quem se apaixonou então?
— Por ninguém, por um ideal, apenas, por aquela que em sonhos me visita. Criei, nos meus sonhos, romances completos! A verdade é que não me conhece! A bem dizer, não podia ser de outra maneira: encontrei duas ou três mulheres — mas seriam elas mesmo mulheres? Eram sempre criadas ou donas de casa que... Vou fazê-la rir se lhe disser que tentei, por mais de uma vez, entabular conversa, como agora fazemos, muito simplesmente, com uma aristocrata, na rua, estando ela sozinha, evidentemente; entabular conversa, claro, timidamente, respei­tosamente, apaixonadamente. Dizer-lhe que morro de solidão, que não me repila, que não tenho maneira de conhecer nenhuma mulher, dando-lhe mesmo a entender que é dever das mulheres não recusar a tímida súplica de um homem tão infeliz como eu. Que, em suma, tudo o que peço se resume a dirigir-me algumas palavras fraternas, uma ou duas palavras de afeto, a não me repelir logo à primeira tentativa, a acreditar na minha boa-fé, a escutar o que lhe disser a zombar de mim, se assim entender, mas a dar-me esperança dizendo-me duas palavras, duas pala­vras apenas, mesmo com a condição de nunca mais nos ver­mos!... Está-se a rir... De fato, o que lhe digo não para menos...
— Não se zangue. Rio-me, pois o senhor é o seu próprio inimigo, pois, se o tivesse tentado, teria talvez obtido êxito, mesmo que isso se passasse na rua: quanto mais simples se é, melhor... Não haveria nenhuma mulher, a não ser que fosse uma tola ou então que estivesse de mau humor nesse momento, que tivesse coragem de lhe recusar essas duas palavras que lhe implorava tão timidamente... Pensando melhor, que digo eu? Certamente que o tomaria por um louco. A verdade é que julgo as outras por mim. Bem sei como esta gente é!
— Agradeço-lhe muito! — exclamei. Nem sequer pode compreender o bem que acaba de me fazer!
— Bem, bem! Diga-me lá uma coisa: como concluiu que eu era a mulher que... que o ia considerar digno de atenção, de afeto... em suma, que não era uma criada ou uma dona de casa, como as outras de que falou? Por que razão decidiu a abordar-me?
— Porquê? Porquê? Talvez porque estava só, porque aquele cavalheiro era demasiado atrevido, por ser de noite: tem de reconhecer que não podia fazer outra coisa que era o meu dever...
— Não, não. Refiro-me a momentos antes, junto da muralha.
— Não é verdade que tinha já nessa altura a intenção de me abordar?
— Junto da muralha? Mas, na realidade, nem sei como lhe responder, temo... Sabe? Hoje sentia-me feliz, caminhava, cantava, tinha ido até aos arrabaldes, nunca vivera horas de tanta alegria. E a menina.., talvez tenha sido só impressão minha.., enfim, desculpe-me se lho recordo, mas tive a impres­são de que chorava, e então eu.... não suportei tal coisa... o coração apertou-se-me... Meu Deus, não teria acaso o direito de me entristecer por sua causa? Terá sido pecado experimentar por si uma fraterna compaixão?... Desculpe, eu disse «compai­xão»... Em suma, para terminar, tê-la-ei ofendido por me ter ocorrido involuntariamente a idéia de me dirigir a si?...
— Deixe! Basta! Não continue... — interrompeu, baixando a cabeça e apertando-me a mão. — Fui eu quem andou mal em lhe ter falado nisto... Mas sinto-me feliz por não me ter enganado a seu respeito... Chegamos já perto da minha casa, é ao fundo desta rua, a dois passos daqui.. Adeus, estou-lhe muito grata...
— Então é possível? Será possível que não nos voltemos a ver... Tudo ficará por aqui?
— Está a ver? — respondeu, rindo-se. —Primeiro só queria duas palavras, e agora... Mas, de fato, não lhe direi adeus... Pode ser que nos voltemos a encontrar...
— Virei amanhã. Oh, desculpe-me, eis-me já a exigir.
— Sim, o senhor está impaciente quase exige...
Escute-me só por um momento! — interrompi-a. — Perdoe-me se lhe digo mais uma coisa... É o seguinte: não posso deixar de aqui voltar amanhã. Sou um sonhador; a minha vida real tão reduzida que momentos como estes que agora vivo são para mim de tal modo preciosos que não poderei evitar de os reproduzir nos meus sonhos. Sonharei consigo toda a noite, toda a semana, todo o ano. Voltarei obrigatoriamente aqui amanhã, justamente aqui, a este mesmo local, a esta mesma hora, e sentir-me-ei feliz por recordar o que hoje aconteceu. Doravante, este lugar é sagrado para mim. Tenho já dois ou três locais como estes em Sampetersburgo. Uma vez, cheguei mesmo a chorar por causa de uma recordação semelhante à que de si vou guardar... Quem sabe, talvez que também a si, há dez minutos, fosse uma recordação que a fazia chorar... Mas desculpe-me, esqueci-me novamente... Talvez que um dia a menina tenha sido particularmente feliz aqui...
— Bem — disse a jovem —, admitamos, voltarei aqui amanhã, às dez horas, como hoje. Vejo que não o posso impedir... A verdade é que tenho necessidade de aqui vir; não vá julgar que lhe concedo uma entrevista. Repito-lhe, tenho de vir aqui por razões pessoais. Mas, está bem... Vamos lá, dir-lho-ei com franqueza: não me desagradará se o encontrar. Além de mais, pode suceder-me algum dissabor como o de hoje... Em suma, agradar-me-ia vê-lo novamente.., para lhe dizer duas palavras. No entanto, veja bem, não vá julgar-me mal, não creia que habitualmente concedo entrevistas com tanta facilidade... Não lho faria se... Mas isto é o meu segredo! Só lhe ponho previamente uma condição...
— Uma condição? Fale, diga, diga já tudo; estou de acordo com tudo, estou pronto para tudo! — exclamei, entusiasmado. — Respondo por mim, serei obediente, respeitoso... bem me conhece...
— Justamente porque o conheço é que o convido para amanhã — respondeu, rindo. — Conheço-o já perfeitamente. Mas aten­ção, só pode vir com uma condição (seja suficientemente bom para fazer o que lhe peço, bem vê que lhe falo francamente): não se apaixone por mim... É impossível, asseguro—lho. Se quiser vir por amizade, será bem-vindo, aqui tem a minha mão... Mas por amor, não, suplico-lhe!
— Juro-lho! — exclamei, segurando a sua minúscula mão...
— Basta, não jure nada: sei que o senhor é inflamável como a pólvora. Não me censure por lhe falar assim. Se soubesse... Também eu não tenho ninguém com quem trocar palavras, a quem pedir um conselho. Como é evidente, não é na rua que se deve procurar conselheiro, mas o senhor é uma excepção. Conheço-o como se fôssemos amigos há vinte anos... Não é verdade que não me trairá?...
— Vai ver... Só não sei como vou passar toda esta noite e todo o dia de amanhã.
— Durma bem. Desejo-lhe, uma boa noite e lembre-se de que confiei em si. O senhor ainda há pouco dizia que é preciso darmos conta de cada um dos nossos sentimentos, até mesmo de uma fraterna amizade! Disse isso de tal modo que subitamente me ocorreu a idéia de lhe confiar...
— O quê, por amor de Deus? Confiar-me o quê?
— Até amanhã! Que isso permaneça por ora como um segre­do. E melhor para si: pelo menos, assim isto parecer-lhe-á um romance. Pode ser que lho diga... Falaremos primeiro e travare­mos um conhecimento mais amplo...
— Eu contar-lhe-ei amanhã toda a minha história! Mas o que se passa? Dir-se-ia que algo de prodigioso me aconteceu... Onde estou eu, meu Deus? Então, diga-me: não se sente contente por não se ter zangado comigo, como teria sucedido com qualquer outra, de não me ter imediatamente repelido? Em dois minutos tomou-me feliz para sempre! Sim, feliz! Quem sabe, talvez tenha conseguido reconciliar-me comigo mesmo, resolvido as minhas dúvidas... Talvez que fique para sempre preso a estes minutos... Enfim, amanhã contar-lhe-ei tudo, saberá tudo...
— Está bem, aceito. O senhor falará primeiro....
— De acordo.
— Até amanhã!
— Até amanhã!
E separamo-nos. Caminhei pelas ruas durante toda a noite: não me decidia a voltar ao meu quarto. Sentia-me tão feliz...
«Até amanhã!»

Noites Brancas - Fiódor Dostoievski

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Ciência e ignorância

Porque tu és grande, Senhor, e pondes os olhos nas coisas humildes, e as elevadas as conheces de longe, e não te aproximas senão dos contritos de coração. Nem és encontrado pelos soberbos, ainda que sua curiosa perícia seja capaz de contar as estrelas do céu e as areias do mar; seja capaz de medir as regiões do céu e de investigar o curso dos astros.

Com a inteligência e o engenho que lhes deste investigam os segredos do mundo, e descobriram muitos deles; predisseram com muitos anos de antecedência os eclipses do sol e da lua, no dia e hora em que hão de suceder, sem que nunca lhes falhasse o cálculo, acontecendo sempre tal e como haviam anunciado. Deixaram ainda por escrito as leis por eles descobertas, as quais ainda hoje se lêem, e de acordo com elas se prediz em que ano, e em que mês do ano, e em que dia do mês, e em que hora do dia, e em que parte de sua luz se hão de eclipsar o sol e a lua; e tudo acontece como está predito.

Admiram-se disto os ignorantes, e pasmam. Os sábios gloriam-se disso, e se desvanecem, e com ímpia soberba afastam-se e se eclipsam de tua luz. E, prevendo com exatidão o eclipse vindouro do sol, não vêem o seu, que já está presente. Não procuram religiosamente saber de onde lhes vem o talento com que investigam essas coisas e, achando que tu as criaste, não se entregam a ti, para que conserves o que lhes deste, nem se te oferecem em sacrifício, como se tivessem feito a si mesmos; nem dão morte às suas soberbas, que alçam vôo como aves do céu; nem às suas insaciáveis curiosidades que, como peixes do mar, passeiam pelas secretas sendas do abismo; nem às suas luxúrias, que os igualam aos animais do campo, a fim de que tu, ó Deus, fogo devorador, destruas estas suas preocupações de morte, e os torne a criar para uma vida imortal.

Mas não conheceram o caminho, o teu Verbo, por quem fizeste as coisas que numeram, e a eles próprios que as numeram, e os sentidos com que percebem as coisas que numeram, e a mente graças à qual as numeram. Tua sabedoria escapa aos números. Teu Filho Unigênito se fez para nós sabedoria, justiça e santificação, e foi contado entre nós, e pagou tributo a César. Não conheceram este caminho, por onde desceriam de seu orgulho até ele, e por ele subiriam até ele; não conheceram, digo, este caminho, e se julgaram mais elevados e resplandecentes que estrelas, e assim vieram a rolar por terra, e seu coração insensato se obscureceu.

Dizem muitas coisas verdadeiras acerca das criaturas; mas, como não procuram piedosamente a Verdade, isto é, o autor da Criação, não o encontram; e, se o encontram reconhecendo-o por Deus, não o honram como a Deus, nem lhe dão graças. Antes, se desvanecem em seus pensamentos, e se dizem sábios, atribuindo a si próprios o que é teu. Atribuem a ti, com perversa cegueira, suas mentiras, a ti, que és a própria Verdade; alteram a glória de um Deus incorruptível, concebendo-a à semelhança e imagem do homem corruptível, das aves, dos quadrúpedes, das serpentes. E convertem tua verdade em mentira, e adoram e servem antes à criatura do que ao Criador.

Eu porém guardava muitas de suas opiniões verdadeiras acerca das criaturas, cuja explicação encontrava nos números, na ordem dos tempos e no testemunho visível dos astros; comparava-as com os ensinamentos de Manés, que escreveu sobre essas matérias numerosas e delirantes loucuras, sem achar nenhuma explicação para os solstícios e equinócios, os eclipses do sol e da lua, e para outras coisas, enfim, das quais tomara conhecimento pelos livros da sabedoria profana.

Contudo, exigia-me que acreditasse nessas doutrinas, embora não concordassem absolutamente com meus cálculos e com o que meus olhos testemunhavam.

Senhor, Deus da verdade, acaso te agradará quem conhecer essas coisas? Infeliz do homem que, conhecendo-a todas, te ignora ti; mas feliz de quem te conhece, embora as ignore! Quanto ao que conhece a ti e a elas, este não é mais bem-aventurado por causa de seu saber, mas só é feliz por ti, se, conhecendo-te, te glorifica como Deus, e te dá graças, e não se desvanece em seus pensamentos.

É melhor aquele que reconhece estar na posse de uma árvore e te dá graças por sua utilidade, embora ignore quantos côvados tem de altura e de largura, que o que a mede, e conta todos os seus ramos, mas não a possui, nem conhece, nem ama a seu Criador. Assim o homem fiel, a quem pertencem todas as riquezas do mundo, e que, nada possuindo, possui tudo, por estar unido a ti, a quem servem todas as coisas – embora desconheça até o curso das estrelas da Ursa – e seria insensatez duvidar – é certamente melhor do que o que mede os céus, conta as estrelas e pesa os elementos, mas despreza a ti, que dispuseste todas as coisas em número, peso e medida.

Santo Agostinho - Confissões