quinta-feira, 21 de março de 2013

A Senhora Xavier a revolução soviética

Encontro-me, agora, em casa da Senhora Xavier e sinto-me um pouco comovido. São, assim, trezentas francesas de 60 a 70 anos, perdidas como ratos cinzentos numa cidade de quatro milhões de habitantes. São antigas professoras primárias ou governantas das meninas do antigo regime e tiveram de passar pela Revolução. Tempos esquisitos. O mundo antigo desmoronava-se sobre elas como um templo, a Revolução esmagava os fortes e dispersava os fracos para os quatro cantos do mundo como joguetes de uma tempestade, mas não tocou sequer nas trezentas governantas francesas. Eram tão miúdas, tão reservadas, tão corretas! Na esteira das belas alunas, haviam aprendido, durante tanto tempo, a tornar-se invisíveis! Ensinavam-lhes as doçuras da língua francesa e essas belas alunas imediatamente apanhavam, no laço das palavras mais doces, os belos namorados da Guarda. As velhas governantas não sabiam explicar que poder secreto escondiam o estilo e a ortografia, uma vez que nunca se tinham servido dele para o amor. Ensinavam também as boas maneiras, música e dança; e esses segredos, que entre elas apenas favoreciam a correção mais requintada, tornavam-se nessas meninas qualquer coisa de vivo e de ligeiro. E as velhas governantas envelheciam, vestidas de preto, severas e discretas, presentes mas invisíveis, como a virtude, as recomendações e a boa educação. E a Revolução, que cortou as flores radiosas, nem sequer roçou, pelo menos em Moscou, aqueles ratos brancos.

A Senhora Xavier tem 72 anos. E a senhora Xavier chora. Sou o primeiro francês que, de há trinta anos para cá, se senta em casa dela. A Senhora Xavier repete, pela vigésima vez: "Se eu tivesse sabido... se eu soubesse... podia perfeitamente ter arranjado um quarto". E vejo a porta aberta, e ponho-me a pensar nos estrangeiros, que também moram naquele apartamento e que não hão-de deixar de denunciar doze vezes o nosso conciliábulo. Sou ainda muito romanesco. A senhora Xavier atualiza devidamente a lenda:
 - Se abri a porta - conta ela orgulhosamente - foi de propósito. Recebo uma visita tão gentil! Todas as vizinhas vão ficar com ciúmes. [...]
Agora, deixo-me ficar à escuta, deixo-a contar. Interroguei-a acerca da Revolução, porque o ponto de vista dela interessava-me. O que é uma revolução? E como é que se consegue subsistir, quanto tudo se desmorona à nossa volta?
- Uma revolução - conta-me a anfitriã - uma revolução é uma coisa muito aborrecida.

Antoine de Saint-Exupèry
Um sentido para a vida