quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A torre forte e a ventoinha

Nas pequenas cidades da idade média, encontram-se não raro vestígios de fortalezas e castelos; e, mesmo onde as construções estão reduzidas a algumas pedras, não é difícil achar quase intacta a alta torre do velho castelo. Ora, essas torres que viram desaparecer tantos séculos e que a seus pés contemplam, com olhar impassível, o turbilhão da vida moderna, como dão bem uma idéia do caráter firme! Em baixo delas, tudo muda, tudo se transforma, tudo evolue; vende-se e compra-se; a elas, porém, nada nem ninguém pode alterar-lhes o granito.

Antigas torres, que são o símbolo do caráter inabalável, do homem que cumpre o seu dever virilmente. Outrora, a torre era o melhor refúgio dos habitantes do castelo; hoje, o homem de caráter firme é o melhor sustentáculo da sociedade. "Nunca abandones o lugar em que a vocação te colocou, e cumpre-lhe todos os deveres" - parecem dizer-nos aquelas pedras mudas. "Considera o número de anos exigidos para a minha construção, quantas pedras foram precisas, e quanto trabalho, bôa vontade, quanto suor! Mas tudo isso não foi em vão. Sobreveio a centenas e centenas de anos!"

Acaso, meu jovem, não te deixas desalentar facilmente na  tua bôa vontade? Quantas vezes não te arrojaste pelo bom caminho, cheio de ardor varonil! Quantas vezes não prometeste trabalhar seriamente no desenvolvimento do teu caráter! Mas, ao cabo de algumas horas, de alguns dias quando muito, a chama do entusiasmo minguava, o ardor desaparecia, e tornavas a ser o mesmo, não é verdade? Foram precisos anos, dezenas de anos, talvez, para levantar a torre; e tu, querias tornar-te homem de caráter num só dia! Bem sabes, entretanto, que se o caminho do pecado é agradável e semeado de flores deliciosas no começo, desilusão terrível cedo nele aguarda o pecador; - e que, se é difícil ser virtuoso no início, esse caminho em breve se torna cada vez menos duro, e sempre, no seu têrmo, se acha a paz duma consciência tranquila.

Mas, que é que eu vejo lá, no cimo daquela velha torre?... aquela coisa que nunca fica no lugar, que vira para a direita e para a esquerda?... Uma ventoinha! Não tem direção fixa, nem sabe estável. Vejo-me quase tentado a dizer que ela não tem princípios nem caráter. Porquanto, se os tivesse, por mais que o vento soprasse, ela não lhe obedeceria. - Abandonar seus princípios, agir contra as próprias convicções, por ser mais cômodo, porque isso assegura uma carreira melhor, porque, à volta de si o vento sopra de outro lado, - é próprio de ventoinha. Mas dize-me, amigo, merece o nome de homem aquele que nas suas ações, princípios e convicções se deixa guiar pelas circunstâncias exteriores e pelos conselhos dos companheiros?

E entretanto, quantos desses jovens não há! Conheces dúzias deles, e eu também. São todos os que não sabem andar com os próprios pés, que, espiritualmente são menores ainda, que olham sempre para a direita e para a esquerda, a verem o que faz o vizinho.

Eis aqui um a quem a consciência avisa: "Não leias esse livro: ouviste dizer que ele é cheio de imundície moral. Por que haverias de deixar a veste branca de tua alma, arrastar-se na água pútrida desse pantanal infecto?" - Está bem, não o lerá. - Chega, porém um colega: "Oh! santinho do pau ôco, criança!", escarnece. - "Eu, criança?", e ei-lo que retorna o livro, e o lê até à última linha e enxovalha a alma na lama que ele encerra.

Agora outro, a quem a consciência diz ainda: "Não vás à exibicação de tal peça, de tal filme! Deixa tal companhia perigosa! - "Como fazer? Os outros lá vão; os outros assim se divertem bastante. Serei o único a lhes fazer frente?".

Ora, meu filho, é exatamente esse o modo de pensar e agir dos ventoinhas.

Pois bem, escolhe. Que preferes ser, uma torre forte ou uma ventoinha? Escravo do mêdo do "que hão de dizer", ou escravo de tua própria consciência?

Dom Tihamer Toth.
O Moço de Caráter.